sábado, 13 de dezembro de 2014

Augusto Nunes: Pequeno Dicionário da Novilíngua Lulopetista

Pequeno Dicionário da Novilíngua Lulopetista (Edição Consolidada ─ 104 verbetes)

A
aliança governista. Maior ajuntamento de partidos de aluguel do planeta. 
aloprado. 1. Companheiro pilhado em flagrante durante a execução de bandalheiras planejadas para favorecer candidatos do PT ao governo de São Paulo. 2. Vigarista engajado em campanhas eleitorais de Aloizio Mercadante.
analfabetismo. 1. Deficiência promovida a virtude no começo do século 21, para apressar a chegada de um enviado da Divina Providência ao Palácio do Planalto. 2. Qualidade depreciada por reacionários preconceituosos, integrantes da elite golpista e louros de olhos azuis. 3. Marca de nascença da Primeira Mãe.
anistiado político. Companheiro que divergiu do regime militar na juventude para investir no futuro, fazer carreira como perseguido político profissional e garantir uma velhice confortável com os adjutórios milionários da Bolsa Ditadura.
apagão. Blecaute ocorrido em lugares governados por adversários do PT. (Ver blecaute)
asilo político. Instrumento jurídico que beneficia todo terrorista condenado em outros países por crimes comuns ou atos de terrorismo.
B
base aliada. 1.Base alugada. 2. Bando formado por parlamentares de diferentes partidos que arrendam a fidelidade ao governo, por prazo determinado,  em troca de ministérios com porteira fechada (cofres incluídos), verbas no Orçamento da União, nomeações para cargos público, dinheiro vivo e favores em geral. 3. Quadrilha composta por deputados e senadores.

blecaute. Apagão ocorrido em lugares governados pelo PT. (Verapagão)
blogueiro progressista. 1. Jornalista que jamais conseguiu emprego ou fracassou nos mais importantes órgãos de comunicação e hoje sobrevive na internet alugado ao governo. 2. Gente que vive de escrever mas seria reprovada na prova de português do ENEM mesmo que soubesse antecipadamente as questões escolhidas pelos organizadores. 3. Ex-jornalistas que enriquecem em campanhas difamatórias encomendadas por patrocinadores corruptos.
Bolívar (Simón). Herói das guerras de libertação da América do Sul que reencarnou no fim do século passado com o nome de Hugo Chávez.
bolivariano. Comunista que finge que não é comunista.
Bolsa Família. Maior programa oficial de compra de votos do mundo.
BNDES. Banco que usa dinheiro dos pagadores de impostos para financiar obras encomendadas pelo governo a empresas privadas que têm patrimônio suficiente para distribuir mesadas de bom tamanho a todos os pagadores de impostos. 2. Instituição que usa dinheiro dos brasileiros para financiar a construção em outros países de portos, hidrelétricas e outras obras com orçamento superior a R$ 1 bilhão.
C
camarada de armas.  Companheiro diplomado em cursinho de guerrilha que só disparou tiros de festim; guerrilheiro que ainda não descobriu onde fica o gatilho do fuzil. (Ex.: Dilma Rousseff e José Dirceu são camaradas de armas.)

cargo de confiança. 1. Empregão reservado a companheiros do PT ou parceiros da base alugada, que nem precisam perder tempo com concurso para ganhar um tremendo salário sem trabalhar. 2. Boquinha (pop.).
cartão corporativo. Objeto retangular de plástico que permite tungar o dinheiro dos pagadores de impostos sem dar satisfação a ninguém e sem risco de cadeia.
Casa Civil. 1. Conjunto de salas no 4° andar do Palácio do Planalto que, entre 2003 e 2011, foi controlado por casos de polícia que entram sem bater no gabinete presidencial. 2. Esconderijo; tugúrio; catacumba. 3. Sede de quadrilhas formadas por amigos ou parentes do ministro-chefe. 4. Antigo nome da atual Casa Covil, rebatizada em homenagem aos ex-inquilinos José Dirceu, Dilma Russeff, Erenice Guerra e Antonio Palocci.
Comissão da Verdade. 1. Grupo de companheiros escalados para descobrir qualquer coisa que ajude a afastar a suspeita, disseminada por Millôr Fernandes, de que a turma da luta armada não fez uma opção política, mas um investimento. 2. Entidade concebida para apurar  crimes cometidos por adversários do lulopetismo.
companheiro. Qualquer ser vivo ou morto que ajude Lula a ganhar a eleição.
concessão. Entrega ao controle da iniciativa privada de empresas, atividades ou setores administrados até então por governos do PT. (Verprivatização)
conselho de ética. Grupo formado por pessoas que não acham antiético roubar o cofrinho de moedas da filha, tungar a aposentadoria da avó ou vender a mãe.
consultor. 1. Companheiro traficante de influência. (Ex: Antonio Palocci é consultor). 2. Companheiro que facilita negócios escusos envolvendo o governo e capitalistas selvagens. (Ex: José Dirceu é consultor). 3. Companheiro que, enquanto espera um cargo no governo federal, recebe mesadas e indenizações de empresas que favoreceu no emprego antigo ou vai favorecer no emprego novo. (Ex: Fernando Pimentel é consultor)
contrato sem licitação. Assalto aos cofres públicos sem risco de cadeia.
controle social da mídia. Censura exercida por sumidades do PT que adivinham o que o povo deve ver, ler ou ouvir. (Ver democratização da mídia)
Copa do Mundo. Negócio da China.
corrupção. 1. Modalidade criminosa praticada só por inimigos do PT. 2. Praga surgida no governo FHC e erradicada por Lula. 3. Um dos hobbies preferidos dos parceiros da base alugada.
crime comum. Assassinato de um prefeito do PT por motivos políticos e financeiros, amplificados por divergências entre integrantes de um esquema de arrecadação de dinheiro sujo para bancar campanhas eleitorais. (Ex.: A morte de Celso Daniel foi um crime comum)
Cuba. 1. Ditadura que obriga o povo a ser feliz de qualquer jeito. 2. Forma de democracia que prende apenas quem discorda do governo.
cueca. Cofre de uso pessoal utilizado no transporte de moeda estrangeira adquirida criminosamente.
D
direita. Categoria em que devem ser enquadrados todos os partidos e indivíduos que não obedecem às ordens de Lula. (Exs: O PSOL é de direita; Hélio Bicudo é de direita)
ditador. Tirano a serviço do imperialismo estadunidense. (Ver líder)
ditadura do proletariado. Forma de democracia tão avançada que dispensa o povo de votar ou dar palpites porque os companheiros dirigentes sabem tudo o que o povo quer.
doutor honoris causa. Diploma conferido a ex-presidentes que nunca leram um livro, não sabem escrever e acham que “honoris” é um Honório com erro de revisão.
E
elite golpista. Ajuntamento que abrange todos os bilionários, os ricos, os integrantes da classe média velha ou nova, os pobres e  os miseráveis que não votam no PT.

erro. 1. Escândalo protagonizado por companheiros. 2. Caso comprovado de corrupção envolvendo ministros ou altos funcionários de empresas estatais.
espetacularização do nada. Expressão decorada pela Primeira Companheira para ensinar que o que parece um tremendo escândalo é só uma distorção visual decorrente de um tipo de miopia causado por efeitos especiais produzidos pela imprensa.
esquerda. 1. Categoria que abrange todos os que apoiam Lula. 2. Conglomerado que junta em torno do mesmo chefe militantes do PT, servidores da ditadura militar, coronéis de grotão, senhores feudais, capitalistas selvagens, socialistas que só pensam em dinheiro e  órfãos do Muro de Berlim. (Exs: José Dirceu é de esquerda; José Sarney é de esquerda)
F
factoide. Fato relevante que que prejudica o PT.

faxina ética. 1. Limpeza simulada para aumentar a sujeira.  2. Truque concebido para convencer o eleitorado de que Dilma Rousseff não conheceu nem de vista gatunos com os quais conviveu anos a fio. 3. Serviço executado por faxineiras que não gostam mais de lixo do que de vassoura.
faxineira. Fantasia usada por Dilma Rousseff para fingir que varreu o lixo empurrado para baixo do tapete ou guardado no bolso do avental.
Fernando Henrique Cardoso. 1. Ex-presidente que, embora tivesse ampla maioria no Congresso, fez questão de aprovar a emenda da reeleição com a compra de três votos no Acre só para ser atacado pelo PT enquanto vivesse. 2. Governante que, depois de oito anos no poder, só conseguiu inaugurar a herança maldita.
FHC. 1. Grande Satã; demônio; capeta; anticristo;. satanás; diabo. 2. Assombração que vive aceitando debater com Lula só para impedir que o maior governante de todos os tempos se dedique a ganhar o Nobel da Paz. 3. Sigla que, colocada nas imediações do SuperLula, provoca no herói brasileiro efeitos semelhantes aos observados no Super-Homem perto da kriptonita verde.
financiamento de campanha. Expressão usada por integrantes da quadrilha chefiada por José Dirceu e por testemunhas de defesa em depoimentos na polícia ou na Justiça sobre o escândalo do mensalão.
Foro de São Paulo. 1. Feira internacional que agrupa remanescentes de espécies ideológicas extintas na Europa e em expansão na América Latina. 2. Quermesse destinada a arrecadar fundos para a Irmandade dos Órfãos do Muro de Berlim.
G
governabilidade. 1. Graça concedida a governantes que são justos na divisão dos lucros. 2. Palavrão que justifica todas as barganhas bandidas entre o Planalto e a base alugada. 

greve: 1. Forma de luta a serviço dos oprimidos (quando a paralisação prejudica  governos contrários ao PT). 2. Forma de chantagem a serviço dos opressores do povo (quando a paralisação prejudica governos controlados pelo PT)
grupo insurgente. Organização terrorista que se opõe ao imperialismo ianque. (Ex: As Farc são um grupo insurgente)
H
herança maldita. Conjunto de mudanças ocorridas durante o governo FHC que incluem o Plano Real, a estabilização da moeda, a privatização de estatais em frangalhos, a modernização da telefonia, a Lei de Responsabilidade Fiscal, a consolidação da democracia e a fixação das diretrizes da política econômica que Lula manteve.

I
imprensa popular: 1. Ajuntamento de meios de comunicação patrocinados por estatais ou empresas beneficiadas por obras públicas, que publicam textos escritos por quem presta vassalagem ao governo e ao PT por vassalagem, idiotia ou dinheiro.

inclusão social. Transferência de pobres para a classe-média sem aumento salarial.
inundação. Desastre natural provocado por chuvas fortes que, embora se repitam em todos os verões desde o século passado, continuam surpreendendo o governo.
IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). 1. Fábrica de brasileiros da nova classe média.  2. Clube de alquimistas especializados na transformação de pobre em ex-pobre sem aumento de salário.
J
justiça social. Expressão que, repetida cinco vezes por dia durante dois anos, induz um catador de lixo a acreditar que a única diferença que o separa de um banqueiro é que um deles dá gorjeta e o outro recebe.

L
líder. Ditador inimigo do imperialismo estadunidense. (Ver ditador)

livro didático do MEC. Inovação educacional que ensina a recitar sem constrangimentos frases como “nós pega os peixe” ou jurar sem hesitação que 10 menos 7 é igual a 4.
M
malfeito. Qualquer tipo de crime praticado por bandidos de estimação do governo federal ou do PT.

maracutaia. 1. Expressão popularizada por Lula no século passado na discurseira que denunciava o que todos os outros partidos faziam. 2. Expressão abolida por Lula desde que o PT passou a fazer mais e melhor que todos os outros partidos.
marco regulatório. 1. Conjunto de normas, leis e diretrizes que, se não fossem atropeladas pelo governo de meia em meia hora, garantiriam o bom funcionamento de setores nos quais agentes privados prestam serviços de utilidade pública. 2. Balaio de leis que não pegaram.
Mensalão. Maior escândalo que não existiu entre todos os outros ocorridos no Brasil desde o Descobrimento.
mercadante. Gente que revoga até o que considera irrevogável.
meu querido/minha querida. Expressões usadas por Dilma Rousseff quando está conversando em público com jornalistas ou ministros e não pode soltar o palavrão entalado na garganta.
mídia golpista: Imprensa independente.
militância. Rebanho formado por ovelhas tão obedientes que, se o Grande Pastor ordenar, tentará atravessar o despenhadeiro sem ponte.
ministério. 1. Equipe formada por 38 nulidades sob o comando de um neurônio solitários. 2. Prova definitiva de que o Brasil aprendeu a funcionar sem governo.
moralismo udenista. Disfunção mental que induz o portador a acreditar que todos são iguais perante a lei, que corrupção é crime e que lugar de ladrão é na cadeia.
MST. 1. Entidade financiada pelo governo, restrita a camponeses que são incapazes de distinguir uma enxada de um trator, mas sabem desde o berçário como fazer uma reforma agrária que apresse a falência do agronegócio.
N
né?. Corruptela de “não é?” usada pela Primeira Companheira para permitir que o neurônio solitário repouse alguns segundos depois de uma frase sem pé nem cabeça e antes de outra que não tem começo, meio ou fim.

neoliberalismo. Doutrina concebida por imperialistas ianques para disfarçar de novidade o capitalismo selvagem do século 19.
no que se refere. Expressão usada pela Primeira Companheira para avisar que lá vem besteira.
nuncaantesnestepaís. 1. Expressão decorada pelo chefe supremo para ensinar ao rebanho que o Brasil começou em 1° de janeiro de 2003 e que foi ele quem fez tudo e todos (menos Fernando Henrique Cardoso).
O
Olimpíada de 2016. 1. Versão em escala cósmica dos Jogos Pan-Americanos mais bandalhos da história. 2. Competição esportiva que começa com a conquista da medalha de ouro pela equipe que representa o Brasil na modalidade assaltos orçamentais. 3. Negociata do século. 

ONG. Organização não-governamental sustentada por bandalheiras governamentais.
ou seja. Expressão usada por Lula para avisar que, como também não entendeu o que acabou de dizer, vai recitar o mesmo besteirol com outras palavras.
Orçamento. 1. Montanha de reais extorquidos dos pagadores de impostos que financia a gastança em Brasília. 2. Bolo de dinheiro dividida em fatias desiguais que o governo reparte entre os partidos da base alugada para garantir a governabilidade. (Ver governabilidade)
P
PAC. Maior concentração de canteiros de obras abandonados do planeta.

palestrante. Disfarce adotado por Lula que lhe permite embolsar 200 mil dólares, doados por empresários amigos, para dizer em 50 minutos o que passou oito anos dizendo de graça de meia em meia hora.
PIG. Partido da Imprensa Golpista, segundo os blogueiros estatizados agrupados no Partido da Imprensa Governista (PIG).
passaporte diplomático. Documento usado por filhos, netos e agregados do ex-presidente Lula para furar a fila da alfândega e entrar em outros países sem mostrar o que esconderam na bagagem.
pedra fundamental. Obra do PAC que não será construída mas já foi inaugurada.
PT: Seita que tem uma estrela vermelha como símbolo e Lula como único deus.
petista: 1. Devoto de Lula. 2. Indivíduo convencido de que foi Lula quem criou o Brasil. 
Petrobrás. 1.Estatal fundada para cuidar dos interesses do Brasil na OPEP depois da Descoberta do Petróleo, uma das mais notáveis façanhas de Lula. 2. Empresa que, quanto mais produz, mais dinheiro perde. 3. Buraco negro.
política externa independente. 1. Conjunto de diretrizes concebidas para garantir que o Brasil esteja sempre contra os Estados Unidos e a favor do Irã, de Cuba, da Coreia do Norte e da Venezuela. 2. Escola diplomática onde se aprende a, diante de uma encruzilhada, escolher invariavelmente o caminho errado.
Predo II. Dom Pedro II segundo Lula. (Ver Transposição do São Francisco)
pré-sal. Presente que Lula ganhou de Deus por ter dispensado o Pai de continuar cuidando do Brasil.  
presidenta. Forma de tratamento usada por candidatos a Sabujo do Ano ou companheiros com medo daquele pito que fez José Sérgio Gabrielli cair na choradeira.
presunção de inocência. Figura jurídica usada no Brasil Maravilha para ensinar que todo lulista culpado é inocente.
privatização.  Entrega ao controle da iniciativa privada de empresas, atividades ou setores administrados até então por governos inimigos do PT. (Ver concessão)
R
recursos não-contabilizados. 1. Caixa dois. 2. Dinheiro extorquido sem recibo de donos de empresas que enriquecem com a ajuda do governo, empreiteiros de obras públicas ou publicitários presenteados com contratos sem licitação.

reforma ministerial.  1. Substituição de ministros pilhados em flagrante pela imprensa independente. 2. Substituição de ministros obrigados a deixar o cargo para disputar a próxima eleição. 3. Troca de seis por meia dúzia.
Regime Diferenciado de Contratação (RDC). Malandragem que dispensa de licitações e limitação de gastos todos os contratos envolvendo obras ou serviços supostamente vinculados à Copa da Roubalheira e à Olimpíada da Ladroagem.
revisão de contrato. Reajuste de sobrepreços e propinas.
S
segundo escalão: Cabide de empregos que o governo usa para estimular, saciar ou diminuir a fome e a sede do PMDB.

sindicalista. Companheiro que abandonou o emprego regular no século passado para exercer o lucrativo ofício de pelego.
sindicância interna. Investigação feita por companheiros especializados em absolver por falta de provas.
Sírio-Libanês. Hospital a que recorrem Altos Companheiros com problemas de saúde para que o SUS, que está perto da perfeição, tenha mais vagas para os miseráveis, os pobres e a nova classe média inventada pelo IPEA. (Ver SUS)
SUS. Filial em tamanho gigante do Sírio-Libanês reservada a quem não tem dinheiro para internar-se na matriz. (Ver Sírio-Libanês)
T
taxa de sucesso. Propina embolsada por filhos, parentes e agregados de Erenice Guerra que usavam a influência da chefe da quadrilha e da Casa Covil para permitir que algum empresário malandro continuasse a fechar contratos com o governo sem ter cumprido o combinado em contratos anteriores. (Ex: Israel Guerra subiu na vida não porque é gatuno, mas por colecionar taxas de sucesso)

Transposição do São Francisco. Tapeação multibilionária inventada pelo ex-presidente Lula para ser promovido a Dom Pedro III. (Ver Predo II)
trem-bala. Trem fantasma que partiu da cabeça de Lula e estacionou na cabeça de Dilma Rousseff, onde vai atravessar o século em companhia do neurônio solitário.
U
União Nacional dos Estudantes (UNE). 1. Entidade que representou os universitários brasileiros até ser estatizada em 2003 e transformar-se na União Nacional dos Estudantes Amestrados (UNEA), premiada pela vassalagem ao governo com uma sede nova projetada por Oscar Niemeyer. 2. Balcão de compra e venda de carteirinhas que garantem meia-entrada. 3. Curso de doutorado em maracutaias reservado a futuros ministros do Esporte. 4. Clube recreativo  dirigido por estudantes que demoram 15 anos para concluir um curso que dura cinco.  (VerUNEA)

V
veja bem. Expressão usada pelo Primeiro Companheiro para avisar que vai descrever uma paisagem do Brasil Maravilha que só ele  enxerga.

Percival Puggina: Da corrupção financeira à corrupção da história

Quando a nação fica sabendo que os muitos escândalos da Petrobras são apenas alguns dentre muitos outros, nascidos no seio fértil do governo recém reeleito, a Comissão da Verdade chega, célere, em seu socorro. Veio a lume, ontem, o relatório final. Sai da pauta a corrupção financeira e entra na pauta a corrupção da história.

Imagine, leitor, que durante o governo Sarney, fosse deliberada a criação de uma Comissão da Verdade com o objetivo de examinar e esclarecer as graves violações de direitos humanos praticadas durante a ditadura de Getúlio Vargas, “a fim de efetivar o direito à memória e à verdade histórica e promover a reconciliação nacional”. Foram muitas e graves as violações. E a nação, decorridos, então, 40 anos da ditadura de Getúlio, se agitava indormida e irreconciliada ante a tenebrosa lembrança dos abusos cometidos por Felinto Müller e seus asseclas.

Avancemos, com nossas suposições. Para compor a Comissão e desenvolver o histórico trabalho, o governo Sarney nomearia sete membros, escolhidos a dedo entre os remanescentes parceiros mais leais de Carlos Lacerda. Tudo gente da velha e combativa UDN.

Uma tal comissão, não fosse apenas fruto de imaginação, concebida para compor o raciocínio que exponho neste texto, seria um disparate, um destampatório, motivo de gargalhadas, porque existem bibliotecas inteiras, centenas de trabalhos acadêmicos a respeito da Era Vargas e da ditadura getulista. Ninguém precisaria então, e não precisa ainda agora, de uma comissão para descrever o período e, menos ainda, de uma versão oficial dos fatos de então, narrados por seguidores de seu maior adversário.

Acho que não preciso desenhar para ser entendido. A atual Comissão Nacional da Verdade era tão necessária quanto seria a CNV sobre Vargas ao tempo de Sarney. Não é assim que se faz historiografia. Versões oficiais são próprias de regime totalitários. Nas democracias, abrem-se os arquivos para que os pesquisadores pesquisem e para que os historiadores escrevam, emitindo suas opiniões em conformidade com o conhecimento adquirido e à luz dos respectivos critérios. E já há centenas de trabalhos feitos. A nação custeou uma comissão que não deveria ser criada, cujo objetivo foi o de transformar comunistas terroristas, sequestradores, guerrilheiros, assaltantes, homicidas em “heróis do povo brasileiro”, lutadores por uma democracia que odiavam com o furor ideológico. Com o mesmo furor ideológico que motivou a luta armada dos comunistas, no mundo inteiro, naquele período da Guerra Fria, infelizmente muito quente por estas bandas.

Passado meio século, muitos dos reverenciados pela CNV estão no poder e persistem nos mesmos afetos ideológicos e na mesma aversão à democracia representativa. Seu apego aos direitos humanos acabam quando visitam Cuba ou Caracas, ou quando elogiam a tirania comunista na Coreia do Norte. Quanto ao mais, tortura é crime odioso, terrorismo é crime odioso, comunismo e ditaduras são regimes odiosos e a anistia, ampla, geral e irrestrita, foi pedida pelos que hoje a querem revogar.


O trabalho dessa Comissão é leviano, violador da lei que a criou, mal intencionado, revanchista. E é o equivalente, em colarinho branco e bem remunerado, ao popular linchamento.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Arnaldo Jabor: A vaca foi para o brejo?

Será que os costumeiros ladrões já sacaram que a ‘mão grande’ é o novo ‘hype’?

A única maneira de se ter esperança no Brasil de hoje é acreditar que os escândalos a que assistimos sejam o indício de uma mutação histórica, para melhor.

Nunca vi nada igual. Todas as certezas estão desabando, toda fé, todas as esperanças morrem diante dessa abundância de escrotidões, esse despautério de horrores. A gente liga a TV, lê o jornal e cai em cava depressão. “Tudo o que é sólido desmancha no ar”, como disse Marx, tão mal entendido pela esquerda burra que tomou o poder na base de mentira e fraudes, como vemos com as granas “legais” que a tesouraria do PT recebeu dos restos de propinas. A velha “esquerda” sempre foi um sarapatel de populismo, getulismo tardio, leninismo de galinheiro e desde 2002 inventou a adesão monstruosa aos velhos roubos da velha direita.

A chegada do PT ao governo reuniu em frente única: as oligarquias privadas com o patrimonialismo do Estado petista. Foi o pior cenário para o retrocesso: Sarney, Calheiros, até o Collor, unidos aos idiotas bolivarianos. Essa base de ação foi o adubo para os crimes da Petrobras e outras dezenas de roubalheiras em hidrelétricas, aeroportos, portos, tudo.

O advogado de um dos acusados disse a frase síntese: “No Brasil, se não der uma grana na mão dos governantes, nem um paralelepípedo você coloca no chão”. E é o pais inteiro, não apenas a PTbras.

Mas, de quem é a culpa disso tudo?

Claro que a responsabilidade principal é a aplicação bolchevique do “toma lá, dá cá”, através do presidencialismo de cooptação para obter apoio dos partidos, ou seja, a corrupção permitida e estimulada é o motor petista da governabilidade. Pode uma coisa dessas?

Será que os costumeiros ladrões já sacaram que a “mão grande” é o novo “hype”?

A destruição da Lei de Responsabilidade Fiscal que Dilma iniciou é o exemplo dessa permissividade. Cada prefeitura do país vai partir para gastos corruptos. As instituições democráticas estão sem força, se desmoralizando, já que o próprio governo as desrespeita.

Será que é culpa dos organismos arcaicos do Poder Judiciário?

Ou será o surgimento de novos problemas que não são solucionáveis com os velhos mecanismos de poder?

Mas o que preocupa é que todo esse gigantesco volume de crimes denunciados possa gerar um congestionamento na Justiça, uma turbulência irreversível que transforme tudo numa massa jurídica informe. O exército de advogados já está convocado para novas e caras chicanas. O que estamos vivendo pode virar um apocalipse institucional.

O Brasil está irreconhecível. Nunca pensei que a incompetência casada com o delírio ideológico promoveria este caos. Há uma mutação histórica em andamento, como disse acima, mas que pode ser para pior, para um “quarto mundo”. Esse desastre me lembra a metáfora de Oswald de Andrade, de que “as locomotivas estavam prontas para partir, mas alguém torceu uma alavanca e elas partiram na direção oposta”.

Isso causa não apenas o caos administrativo como também provoca uma mutação na mente e no comportamento das pessoas.

O Brasil está sendo desfigurado dentro de nossas cabeças, o imaginário nacional está se deformando.

Há uma grande neurose no ar. Cria-se uma vontade de fuga. Nunca vi tanta gente falando em deixar o pais e ir morar fora.

As mudanças mentais são visíveis: nos rostos tristes nos ônibus abarrotados, na rápida cachaça às 6 da manhã dos operários antes de enfrentar mais um dia de inferno, nos feios, nos obesos, no desânimo das pessoas nas ruas, no pessimismo como único assunto em mesas de bar.

Estamos experimentando sentimentos inesperados, dores nunca antes sentidas. Quais são os sintomas mais visíveis desse trauma histórico?

Por exemplo, o conceito de solidariedade natural, quase “instintiva”, está acabando. Já há uma grande violência do povo contra si mesmo. Garotos decapitam outros numa prisão, ônibus são queimados por nada, com os passageiros dentro, meninas em fogo, presos massacrados, crianças assassinadas por pais e mães, uma revolta sem rumo, um rancor geral contra tudo. Cria-se um desespero de autodestruição e o país começa a se atacar.

Outro nítido efeito na cabeça das pessoas é o fatalismo: “É assim mesmo, não tem jeito não”. O fatalismo é a aceitação da desgraça.

E crescem a desesperança e a tristeza. O Brasil está triste e envergonhado.

Essa fragilização da democracia traz de volta também um desejo de autoritarismo na base do “tem de botar para quebrar!” Já vi muito chofer de taxi com saudades da ditadura.

A ausência de uma política contra a violência e a ligação de muitos políticos com o tráfico estimula a organização do crime, que comanda as cadeias e já demonstra uma busca explícita do horror. A crueldade é uma nova arte incorporada em nossas cabeças, por tudo que vemos no dia a dia dos jornais e TV. O horror está ficando aceitável, potável.

O desgoverno, os crimes sem solução, a corrupção escancarada deixam de ser desvios da norma e vão criando uma nova cultura: a “normalização” da ignomínia; por trás do crime e da corrupção, consolida-se a cultura da mentira, do bolivarianismo, da preguiça incompetente e da irresponsabilidade pública.

Vivemos um paradoxo, um pleonasmo: aqueles que pensam não sabem o que pensar — como refletir sem uma ponta de esperança? Todos falam: “precisamos fazer isso, fazer aquilo, mas ninguém sabe quem fará”. Temos aí a nova escola crítica: a análise impotente da impotência, a “contemporaneidade” pessimista de intelectuais, a utopia da distopia.

É difícil botar a pasta de dente para dentro do tubo. Há uma retroalimentação da esculhambação generalizada que vai destruindo as formas de combatê-la. Tecnicamente não estamos equipados para resolver as deformações que se acumulam como enchentes, como um rio sem foz.


O Brasil está sofrendo uma mutação gravíssima, e nossas cabeças, também. Sempre ouvimos que o Brasil estaria à beira do abismo; será que já caímos nele? Será que a vaca já foi para o brejo?

João Cesar de Melo: O capitalismo e o surf

Até 30 anos atrás no Brasil e 50 anos atrás no resto do mundo, o surf era um esporte marginalizado, visto como coisa de vagabundo. O que acabou com esse preconceito? O que transformou o surf num esporte respeitado? Não… Não foram campanhas de conscientização promovidas por governos. Não foi nenhum movimento coletivista que cobrou cotas na mídia e incentivos financeiros ao esporte. Foi o capitalismo. Foram pessoas visando o lucro. Foi o conjunto de ambições individuais que transformou o surf num esporte admirável.

Desde o começo do surf moderno, quase um século atrás, seus praticantes o tinham como um estilo de vida quase transcendental, que os distinguia do restante da sociedade. Sentiam-se puristas. Paz, amor e surf. Eram pequenos grupos de amigos que surfavam praias desertas, livres das multidões e das pressões urbanas. Mas essa “transcendentalidade” era difícil de ser mantida. As pranchas que improvisavam para surfar eram péssimas. Sem roupas adequadas, passavam muito frio no inverno. A polícia os perseguia. Os motoristas dos ônibus os rejeitavam. Dias de boas ondas surgiam no meio da semana, coincidindo com o horário de trabalho. O simples ato de ir surfar exigia grandes sacrifícios.

As necessidades e os desejos eram comuns: Precisavam de equipamentos mais adequados; desejavam mais respeito da sociedade e uma forma de se sustentarem sem terem que se corromper aos rigores de expedientes formais.

Naturalmente, todas essas necessidades e desejos foram sendo realizados…

Alguns surfistas começaram a se destacar pela qualidade das pranchas e dos equipamentos que produziam para si mesmos, gerando encomendas de amigos. Assim, começaram a ser fabricadas as primeiras pranchas feitas especialmente para o surf; e também bermudas adequadas, roupas de neopreme para suportar a água fria e outros acessórios.

A melhoria das condições da prática do esporte não apenas atraiu mais adeptos, mas também melhorou as performances dentro d’água, fazendo os surfistas se tornarem cada vez mais competitivos uns com os outros, motivando a realização de pequenos campeonatos entre amigos e entre grupos de cidades diferentes.

Aqueles surfistas que começaram a fabricar os equipamentos, também começaram a competir entre si pela preferência de seus colegas-consumidores. Enxergando que a melhor forma de manterem seu estilo de vida no surf era desenvolverem-se como fabricantes de equipamentos do próprio esporte, estes surfistas-empresários passaram a divulgar suas marcas organizando campeonatos e patrocinando os colegas mais habilidosos, que passaram a ser tratados como atletas. O prestígio de cada atleta passou a ser medido pelo número de vitórias. O prestígio de cada campeonato passou a ser medido pela premiação que oferecia.

As marcas cresciam na proporção de aumento no número de praticantes, o que fez surgir também uma grande massa de pessoas que não apenas prestigiava os eventos e admirava o estilo de vida dos surfistas, mas também consumia os produtos relacionados a eles. As roupas dos surfistas começaram a produzidas também para quem não surfava. O sucesso das marcas era proporcional ao sucesso dos eventos que organizavam, dos atletas que patrocinavam e da qualidade dos produtos que ofereciam.

Pranchas e equipamentos melhores tornavam o esporte cada vez mais seguro e as performances cada vez mais arrojadas. Na disputa pelo mercado, as marcas profissionalizaram surfistas para que eles vivessem exclusivamente do surf, para se tornarem cada vez melhores, para ganharem cada vez mais campeonatos, para serem cada vez mais vistos pelos consumidores como símbolo da qualidade da própria marca. Em troca dos salários e das regalias, as marcas passaram a cobrar de seus atletas também uma conduta social exemplar, sem envolvimento em confusões ou com drogas, para que nada pudesse sujar a imagem da empresa − o capitalismo acabou com o estereótipo de surfista drogado e vagabundo.

Ídolos surgiram, assim como uma massa de moleques desejando ter a vida desses ídolos. Os salários e as premiações melhoravam ano após ano… O esporte passou a ser mais bem organizado com a criação de associações e categorias de competição. Diante de todo esse desenvolvimento, a mídia começou a enxergar um novo mercado de anunciantes. Empresas de outros segmentos também começaram a patrocinar os campeonatos para divulgar suas marcas.

O resultado desse conjunto de iniciativas e interações privadas é que hoje o surf é um esporte respeitado e admirado em todo o mundo, entre todas as camadas sociais. Sua indústria movimenta dezenas de bilhões de dólares, empregando centenas de milhares de pessoas. Seus ídolos ganham milhões. Muitos surfistas sequer precisam competir. Precisam, apenas, emprestar seu talento e sua imagem a campanhas de publicidade, na maioria das vezes em filmes e seções de fotos feitos em lugares paradisíacos, distantes do alvoroço das cidades.

Ou seja: os surfistas de hoje realizam os sonhos dos surfistas de décadas atrás. Tudo isso, vale salientar, graças às ambições de “meia-dúzia” de pessoas que, pensando em si mesmas, não apenas ofereceram melhores equipamentos aos colegas de praia, mas também transformaram um esporte numa referência de estilo de vida. Graças às ambições capitalistas daqueles que criaram as primeiras marcas de surf, hoje temos empresas gigantescas que patrocinam atletas e campeonatos e ainda viabilizam diversas ações sociais e ambientais em todo o mundo.

Para cada empresário do surf que enriqueceu, há dezenas de milhares de pessoas que podem adquirir pranchas, roupas e equipamentos a preços acessíveis, e o mais importante: têm o respeito da sociedade e apoio da família para surfar.

Para cada grande empresa do mercado do surf, há dezenas de pequenas marcas tentando abocanhar parte do mercado patrocinando surfistas amadores e eventos regionais.

Onde esteve o Estado nesse processo todo? Para a sorte do esporte, o Estado sempre esteve distante ou contra. Hoje, a polícia não mira os surfistas numa blitz como fazia antes. Hoje, a polícia sabe que no carro que leva um punhado de pranchas não estão vagabundos quase anônimos, mas sim cidadãos que sustentam um esporte que aparece tanto na campanha publicitária do lançamento de um novo automóvel, quanto na programação da Globo. Hoje, o Estado sabe que o surf é um esporte forte e independente. O surf não recebe dinheiro do Ministério dos Esportes. O surf não tem o menor interesse em fazer parte das Olimpíadas. O surf se sustenta. O surf continua marginal, porém, à margem apenas do Estado.

Graças às ambições individuais daqueles malucos de décadas atrás, o esporte cresceu tanto que hoje temos entre os surfistas juízes, artistas, celebridades e empresários dos mais diferentes setores; e engana-se quem diz que a popularização do surf tirou sua poesia, transformando um esporte numa mera cultura de massa.

Enquanto milhões de surfistas de fim de semana acotovelam-se nas praias urbanas, os surfistas de verdade, aqueles que têm o esporte como estilo de vida, usufruem de condições muito melhores para viajar para lugares distantes, livres das multidões. Contam com suporte para as viagens, com sites de previsão das condições do mar e ainda podem registrar com facilidade suas ondas em fotos e vídeos.

Daqui alguns dias Gabriel Medina, de 20 anos de idade, competirá na última etapa do circuito mundial com reais chances de se tornar o primeiro brasileiro campeão. Quem o fez? O Estado, por meio de programas, leis ou alguma coisa parecida? Não. Quem o fez foi seu pai, membro da primeira geração de surfistas profissionais e que há anos acompanha seu filho recebendo todo o suporte de uma empresa privada, que visa o lucro. Empresa criada por um surfista.

Graças às ambições de muitos empresários, daqui uns dias todos os surfistas e simpatizantes do esporte poderão assistir à final do circuito mundial, no Havaí, por meio de uma transmissão ao vivo, com diversas câmeras e entrevistas in loco, algumas com os atletas ainda dentro d’água. Desejando obter lucro, distribuirão não apenas prêmios aos competidores, mas também salários às centenas de pessoas que compõem a equipe técnica do circuito e ainda levarão alegria a dezenas de milhões de fãs do esporte espalhados pelo mundo.

Graças às ambições de outros empresários, um surfista pobre e sem talento – porém apaixonado – como eu, pode estar hoje na Califórnia surfando algumas das ondas que sempre sonhou e ainda compartilhar essas reflexões por meio de um computador que cabe na mochila e que se conecta a todo o mundo sem se utilizar sequer de um cabo.


O conjunto de iniciativas e interações privadas que tirou o surf da marginalidade é o mesmo que nos deu todas as facilidades e prazeres que desfrutamos hoje; e se ainda há muitos indivíduos que não desfrutam disso, é porque ainda há muito Estado entre as pessoas e a realização dos desejos dessas mesmas pessoas.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Fernando Henrique Cardoso : Vitória amarga

Raras vezes houve vitória eleitoral tão pouco festejada. Nem mesmo o partido da vencedora, tonitruante e dado a autocelebrações, vibrou o suficiente para despertar o País da letargia. Os mais espertos talvez tenham percebido que seus quadros minguaram, com graves perdas de entusiasmo e adesão na juventude e certo rancor em setores do empresariado mais moderno.

A reeleita possivelmente saboreie o êxito com certo amargor. É indiscutível a legalidade da vitória, mas discutível sua legitimidade. O que foi dito durante a campanha eleitoral não se compaginava com a realidade. Só mesmo seu ministro da Fazenda, que coabita com o novo ministro designado, pôde dizer de cara lavada que a economia saíra da estagnação e os males que a assolam vêm da crise mundial.

Recentemente, fazendo coro a essa euforia de encomenda, diante de dados que mostram um "crescimento" de 0,1% do PIB no trimestre passado, houve a repetição da bobagem: finalmente a economia teria saído da "recessão técnica", de dois ou mais trimestres seguidos. Palavras, palavras, palavras, que não enganam sequer os que as estão pronunciando.

Na formação do novo Gabinete a presidenta começou a atuar (escrevo antes que a tarefa esteja completa) no sentido de desdizer o que pregara na campanha. Buscou um tripé "de direita" para o comando da economia. Na verdade, o adjetivo é despiciendo: a calamidade das contas públicas levou-a a escolher quem se imagina possa repô-las em ordem, pois sem isso não existe direita nem esquerda, mas o caos. Menos justificável, senão pela angústia dos apoios perdidos, é a composição anunciada do resto do Ministério, de cunho mais conservador/clientelístico. Esperemos.

A presidenta, com essa reviravolta, deve sentir certa constrangedora falta de legitimidade. Foi a partir da ação dela na Casa Civil, e daí por diante, que se implantou a "nova matriz econômica": mais gastança governamental e mais crédito público, à custa do Tesouro. Foi isso que não deu certo, e serviu de alavanca para outros equívocos que levaram o governo do PT a perder a confiança de metade do País. Sem falar da quebra moral.

Metade, sim, mas que metade? É só ver os dados eleitorais com maior minúcia, município por município: a oposição ganhou, em geral, nas áreas mais dinâmicas do País, inclusive nas capitais onde há sociedade civil mais ativa, maior escolaridade, capacidade empreendedora mais autônoma e menos amarras aos governos. O lulopetismo, nascido no coração da classe trabalhadora do ABC, recuou para as áreas do País onde a ação do governo supre a ausência de uma sociedade civil ativa e de setores produtivos mais independentes de decisões governamentais.

É falaciosa a afirmação de que houve vitória da oposição em áreas geográficas tomadas isoladamente: Sudeste rico em contraposição ao Nordeste pobre, idem quanto ao Sul ou quanto o Centro-Oeste em relação ao Norte. Ou de ricos contra pobres, à moda lulista. Por certo, como há maior concentração da pobreza nas áreas mais dependentes do assistencialismo governamental, houve, de fato, uma distinção na qual as faixas de renda pesam. Mas os 7 milhões de dianteira que Aécio levou sobre Dilma em São Paulo terão sido "dos ricos"? Absurdo. Nas áreas menos dependentes do governo, ricos e pobres tenderam a votar contra o lulopetismo e nas demais, a favor de Dilma, ou melhor, do governo. A votação na oposição no Acre, em Rondônia, em Roraima ou nas capitais do Norte e Nordeste se explica melhor pelo dinamismo do agronegócio e pelos serviços que ele gera e, no caso das capitais, pela maior autonomia de decisão das pessoas.

Esse o xis da questão. Eleito com apoio dos mais dependentes (não só dos mais pobres, mas também dos dependentes da "máquina pública" e das empresas a ela associadas), o "novo" governo precisa fazer uma política econômica que atenda aos setores mais dinâmicos do País. Vem daí certa tristeza na vitória: a tarefa a ser cumprida seria mais bem realizada com a esperança, o ânimo e o compromisso de campanha dos que não venceram. Cabe agora aos vitoriosos vestir a camisa de seus opositores (como Lula já fez em 2003), continuar nos maldizendo e fazendo mal feito o que nós faríamos de corpo e alma, portanto, melhor. Atenção: a economia não é tudo. Menos ainda um ajuste fiscal. O êxito de uma política econômica depende, como é óbvio, da política. Economia é política. Política exige convicção, capacidade de se comunicar, mensagem e desempenho. No Plano Real coube-me ser o arauto, falar com a sociedade, ir ao Congresso, convencer o próprio governo. O presidente Itamar Franco teve a sabedoria de indicar, para me suceder, o embaixador Ricupero, que fez o mesmo papel. E agora, quem desempenhará a função de governar numa democracia, isto é, obter o apoio, o consentimento, a adesão dos demais atores políticos? Do Congresso, das empresas, dos sindicatos, das igrejas, da mídia, numa palavra, da sociedade.

A presidenta Dilma, mulher sincera, ciosa de suas opiniões, terá condições para se transmutar em andorinha da mensagem execrada por ela e sua grei? A nova equipe econômica terá esse perfil ou se isolará no tecnicismo? O "petrolão" será uma ventania ou um tufão a derrubar as muralhas do governo e da "base aliada"? E a oposição, ela se oporá de verdade ou embarcará no tecnicismo e na boa vontade à espera que o "mercado", sobretudo o financeiro, se acalme e tudo volte à moda antiga? O mesmo se diga de cada setor da sociedade.


É mais fácil rearranjar a economia do que acertar a política. Que fazer com essa quantidade de partidos e ministérios, interligados mais por interesses, muitos dos quais escusos? Sem liderança, nada a fazer. Com miopia eleitoreira, menos ainda. Tomara não sejam os juízes os únicos a purgar nossos males, como ocorreu na Itália, até porque no exemplo citado o resultado posterior, a eleição de um demagogo como Berlusconi, não foi promissor.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Lucas Berlanza: Hospital Che Guevara em Maricá: basta de homenagens a facínoras de esquerda!

Em tempos de Comissão da Verdade e discursos oportunistas de “resgate da memória histórica”, aproveitados para legitimar o imaginário acerca do atual governo e a trajetória de algumas de suas lideranças – conhecidas pelo combate ao nosso famigerado regime militar, feito, sabemos bem, para implantar aqui uma ditadura muito pior -, têm sido costume no Brasil revisitar também algumas das mais importantes personalidades comunistas do passado. Com absoluta falta de respeito a suas vítimas e com completo desprezo pela realidade, obras são batizadas com o nome de fascínoras de esquerda – e outras, em prol de interesses ideológicos e eleitoreiros, têm seus autores originais desprestigiados em favor de figuras que nada tiveram a ver com suas construções.

Há pouco, a ponte Rio-Niterói foi exemplo dessa prática revoltante. A Comissão de Cultura da Câmara aprovou, no último dia 12 de novembro, a mudança do nome oficial da ponte. Construída durante o regime militar, sob a batuta de Mario Andreazza, ministro dos Transportes à época, ela tem o nome do presidente Arthur da Costa e Silva. Parlamentares como Chico Alencar e Jandira Feghali (que surpresa!) conseguiram aprovar a medida que dá à ponte o nome do sociólogo Betinho, exilado durante o regime, que não tem absolutamente nenhum mérito pela edificação da obra. Se o incômodo é tanto e precisam mudar o nome, por que não colocar o nome de Andreazza, que realmente foi responsável? De qualquer modo, ela continuará a ser sempre, para o povo carioca, a “ponte Rio-Niterói”. É inútil a medida, e passa por cima da tão proclamada verdade histórica sem o menor pudor. Sempre frisamos: por que ninguém se ocupa de mudar o nome da Avenida Presidente Vargas, tendo sido Getúlio um ditador ainda mais completo e cruel que os nossos mandatários militares?

Ano passado, ocorreu algo pior ainda. O Colégio Estadual Presidente Emilio Garrastazu Médici, em Salvador, mudou de nome. Foi rebatizado com o nome de um esquerdista que combateu a ditadura, naturalmente, mas desta vez não se ativeram a um sociólogo. O colégio passou a se chamar Carlos Marighella. Isso mesmo; um assassino comunista, terrorista da luta armada, virou nome de colégio. É preciso destacar mais o despropósito?

Também no começo deste mês, em Porto Alegre, houve uma manifestação contra o Memorial Luiz Carlos Prestes, em homenagem à mais representativa figura do comunismo no Brasil, diretamente implicada, por exemplo, na morte da jovem Elza Fernandes. Um homem que foi capaz de se articular ao lado de Getúlio, o ditador que enviou sua esposa grávida para os nazistas. No entanto, como disse o cientista político Paulo Moura, que ajudou a promover o ato, acharam por bem erguer um monumento a ele como se o golpista totalitário tivesse sido um “herói da pátria” – uma vergonha inadmissível para a nação.

Até aqui, porém, o nível de sordidez se mantém em níveis nacionais. Betinho, Marighella, Prestes: todos foram brasileiros. O prefeito de Maricá, Washington Luiz – apelidado de “Washington Quaquá” – foi mais longe. O dito cujo é petista – por que não me surpreendo?
Em 17 de setembro de 2012, ele anunciou, no site da Prefeitura, a construção de um novo hospital na região. O projeto estava calculado em R$ 16 milhões – R$ 11 milhões obtidos junto ao Ministério da Saúde e repassados pela Caixa Econômica Federal e R$ 5 milhões de contrapartida municipal. O hospital, de acordo com o anúncio oficial, ficaria instalado numa área de 6,6 mil m² às margens do km 29 da RJ-106.

Aparentemente, nada realmente grave, não fosse pelo nome a ser dado à construção. Teríamos, em terras brasileiras, o Hospital Municipal Doutor ERNESTO CHE GUEVARA. Sim, isso mesmo que você leu. Fôssemos extremamente ingênuos (ou, mais apropriadamente, imbecis) e veríamos nisso apenas uma lembrança do fato de que Guevara foi médico. Uma gritante contradição, no entanto, sabemos bem. Este médico, cuja dedicação deveria ser a de salvar vidas, se tornou um revolucionário sanguinário, que exaltava o ódio e aplaudia execuções sem julgamento. Toda a verdade sobre Guevara já está suficientemente exposta e esclarecida, mas as nossas esquerdas obtusas e mal-intencionadas insistem em alimentar a imagem de um herói defensor da justiça social.

Dar a um hospital brasileiro o nome de Ernesto Che Guevara, seja esse hospital onde for, seja do tamanho que for, é, sem exagero nenhum, um atentado à dignidade moral da nossa pátria. É, além disso, uma ofensa grave às vítimas dos fuzilamentos, e nada menos que uma profanação de um lugar em que deveria ser exercida a sagrada tarefa da medicina. O senhor Quaquá, num gesto nada engraçado – ao contrário de seu apelido -, em vez de homenagear quaisquer figuras de peso de nossa história nacional, prefere tomar um assassino genocida estrangeiro, comandante da Revolução que mantém a dinastia Castro até hoje no poder em Cuba, para dar nome a algo de finalidades tão nobres.


As obras do hospital, hoje, estão atrasadas. Talvez de propósito – afinal, que maneira melhor de homenagear o socialismo? O socialismo nada produz, não gera riqueza, nada edifica, nada constrói. Melhor maneira de reproduzir os ideais guevaristas não poderia haver. Melhor ainda seria, para os cidadãos de Maricá que não compactuam com essa imundície, para os cidadãos fluminenses e cariocas, para os cidadãos brasileiros, que tal obra, com esse nome, jamais fosse erguida em nossa terra. O Brasil não precisa de exaltações à tirania e à matança. Basta! Mais respeito à vida humana, e mais respeito à legítima memória histórica. Enquanto tentarem reescrevê-la, tal como o Socing no 1984 de George Orwell, que haja, nas consciências de quem se põe em busca da verdade e de sua preservação, a necessária resistência.

Estadão: PSDB aposenta os “punhos de renda”

De origem acadêmica, o PSDB fez ao longo dos 12 anos dos governos Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff uma oposição “punhos de renda” que, segundo parlamentares tucanos, não se traduzia em ações de contenção ao poder do PT. A reeleição da presidente serviu de “rito de passagem” para o partido, que abriu a caixa de ferramentas antes mesmo do início do segundo mandato.

Logo após a eleição, o partido - com o argumento de responder aos questionamentos nas redes sociais sobre a confiabilidade das urnas eletrônicas - pediu uma auditoria no resultado das eleições. No momento seguinte, os principais líderes da legenda, como o senador Aécio Neves (MG) - candidato à Presidência derrotado no 2.º turno por Dilma -, iniciaram uma blitz retórica, como chamar o PT de “organização criminosa”.

Agora, dizem os tucanos, com a votação do projeto que flexibiliza a meta fiscal, é o momento da ação legislativa. “O governo saberá daqui para a frente o que é fazer oposição selvagem”, disse ao Estado o líder tucano na Câmara, Antonio Imbassahy (BA), ele próprio autor de 12 discursos de ataque ao governo Dilma na sessão de 18 horas que aprovou a flexibilização das metas fiscais - iniciada anteontem e encerrada na manhã de ontem.

O primeiro discurso de Imbassahy foi feito às 10h28, 25 minutos antes da sessão do Congresso alcançar o quórum necessário para apreciar dois vetos da presidente Dilma e as mudanças na meta fiscal. O último ocorreu às 4h38 minutos da madrugada de ontem, antes do encerramento às 5h. Em cada um deles Imbassahy acusou o governo de envolvimento em corrupção, de ter quebrado o País, e de fazer maquiagem para tentar se salva. Também citou a delação do executivo Augusto Mendonça, do grupo Toyo Setal, que disse que doações eleitorais ao PT eram parte da propina cobrada em contratos da Petrobrás.

Na mesma linha “oposição selvagem” dos tucanos, o deputado Domingos Sávio (MG) fez 15 pronunciamentos. Já o líder do PSDB no Senado, Aloysio Nunes Ferreira (SP), fez seis intervenções. Numa delas, evocou o segundo livro de Samuel, na passagem em que o rei Davi é perdoado depois de reconhecer que errou ao seduzir a mulher de Urias. “A presidente errou, mas não reconhece. E erra de novo. Não será perdoada”, sentenciou Aloysio Nunes Ferreira. Imbassahy, Aloysio Nunes e Domingos Sávio fazem parte da tropa de choque do PSDB, disposta a não dar sossego ao PT.

Preço. Mas o próprio Aécio, que é presidente do partido, também foi para o ataque, durante a longa sessão que tratou da mudança na meta de ajuste fiscal. Disse que Dilma tinha posto o Congresso “de cócoras” ao editar decreto condicionando a liberação de emendas parlamentares à aprovação da proposta do ajuste fiscal. Aécio fez as contas e chegou à conclusão que cada parlamentar valia R$ 748 mil no preço do governo.


Imbassahy diz que os tucanos estão animados. “É como se a gente estivesse numa partida de futebol, com o estádio cheio. Nosso candidato à Presidência da República teve 51 milhões de votos. Cada vez que nos manifestamos aqui, estamos nos manifestando para 51 milhões de eleitores. Isso dá um ânimo danado para brigar.”