quinta-feira, 26 de março de 2015

Editorial O Globo: Intolerância religiosa é incompatível com a democracia

A questão da intolerância religiosa está na agenda política do país. Com preocupante frequência, episódios de violência contra adeptos de religiões de diversas matrizes chegam ao conhecimento da imprensa ou são registrados em órgãos institucionais. Atos condenáveis, são evidências de que o tema merece a atenção da sociedade, através de seus organismos de representação e prevenção. Ainda que uma escalada generalizada de discriminação no terreno da fé seja ainda um risco potencial, inibi-lo liminarmente é um imperativo da democracia.

Há no Brasil um indisfarçável incremento da intransigência. Religiões de matrizes africanas aparecem como alvos preferenciais da violência. O Rio de Janeiro tem um dos mais graves perfis desse tipo de violência, um quadro em que se configura uma perseguição de cunho fundamentalista dirigida contra esses fiéis. São agressões físicas, invasões de terreiros de umbanda ou candomblé e outras ações ditadas por crenças que se atribuem o monopólio da fé, um tônico para a intolerância.

Não são poucos os episódios que justificam a inquietação com esse tipo de procedimento. Ano passado, mães e filhos de santo foram expulsos de morros cariocas por adeptos de um ramo religioso neopentecostal. Mais grave ainda: um juiz federal, ao avaliar uma ação patrocinada por um pastor neopentecostal, sentenciou que umbanda e candomblé não se constituem religiões. São exemplos que ajudam a explicar - nunca a justificar - por que pelo menos metade dos terreiros fluminenses já foi alvo de algum tipo de agressão.

Dentro desse quadro, é compreensível a iniciativa de representantes de religiões de matriz africana, o ramo mais visado pela intransigência de fiéis de outras crenças, de entrar no Ministério Público de 26 estados com pedidos de investigação de casos de intolerância religiosa. O alvo explícito das ações é a criação de um grupo chamado Gladiadores do Altar, ligado à neopentecostal Igreja Universal do Reino de Deus. Deve-se ressaltar que, apesar de essas fileiras adotarem uma liturgia militarizada nas suas aparições, até agora restritas a templos com plateias de fiéis (mas amplamente divulgadas em vídeos na internet), não há qualquer registro comprovado de que se tenham envolvido em atos de violência. A própria Iurd assegura, em pronunciamento oficial, que tem “apreço pelos seguidores de todas as religiões”, e que o projeto dos Gladiadores “se resume a um programa de ensino religioso pacífico”. A ver.


De toda forma, cabe agora ao MP investigar se procedem ou não as preocupações que inspiraram os pedidos de investigação. Por laico e comprometido com os princípios de um Estado Democrático de Direito, o Brasil assegura a todos os cidadãos o pressuposto da liberdade de culto e criminaliza a segregação. Há de fato no país surtos de intolerância religiosa, mesmo que não generalizados, e é sob esse aspecto que o pleito da umbanda e do candomblé precisa ser diligenciado. Por prevenção e para que não se dê curso a criminosas manifestações de violência contra a fé.