sexta-feira, 18 de julho de 2014

Fernando Gabeira: Todos no mesmo bote de fibra óptica

Na Copa das Confederações torcemos para o Taiti. Mesmo quando perdia de 10 a 0, ainda vibrávamos com as raras oportunidades de um gol de honra. O Taiti não é aqui. É um país do surfe de ondas gigantes, com suas águas azuis e a temível Praia de Teahupoo, conhecida como Quebra Crânio. Já o Brasil é, ou era, o país do futebol. Gastamos R$ 40 bilhões para sediar a Copa do Mundo e fomos os únicos a perder de 7 a 1.

A presidente Dilma declarou no Paraná que o Exército usaria, para resgatar as vítimas do temporal, um bote de fibra óptica. No início fiquei em dúvida. Tinha visto na TV um programa sobre como o GPS orienta a agricultura americana, aumentando sua produtividade e traçando com rigor a trajetória ideal dos tratores. Será que haviam inventado um bote de fibra óptica para explorar as riquezas do mar, quem sabe até do pré-sal? Mas o bote de fibra óptica não existe nem será inventado. Ele é, para mim, o sinônimo de uma canoa furada em que todos navegamos no momento.

Dilma também chamou de urubu quem não acreditava nas maravilhas da Copa. Caiu um pequeno viaduto, mas isso não é problema, porque não havia ninguém do governo embaixo dele no instante da queda. Já escrevi sobre ser chamado de urubu pela artilharia eletrônica petista. Urubu é o símbolo da torcida do Flamengo. É o preto da camisa rubro-negra, cores do Íbis, o pior time do mundo, ou da Alemanha, que nos serviu o chocolate da Copa das Copas, portanto, o chocolate dos chocolates.

Não sei o que a presidente tem contra os urubus. Tom Jobim amava-os e discorria longamente sobre a elegância de seu voo, nas mesas do Degrau, no Leblon da sua época. Fez uma linda melodia para traduzir em sons a beleza de seus movimentos. Não creio que seja pela cor, porque esse tipo de preconceito, teoricamente, o PT não tem. Ou porque come bichos mortos, algo que a maioria da humanidade faz. Pode-se dizer em defesa dos seres humanos que não comem um animal cru. Mas isso era antes da chegada dos restaurantes japoneses, de vez que os bifes tártaros eram exclusividade de uma minoria.

Dilma estava rígida na final da Copa. Nem se levantou para aplaudir o gol da Alemanha. E quem não aplaudiu aquele gol de Götze ou não gosta de futebol ou é argentino, pois os hermanos sentiram ali que perdiam o título. Compreendo esse medo, já que estamos no mesmo bote de fibra óptica, na mesma canoa furada. Durante os primeiros dias após os 7 a 1 fiquei com medo de abrir as gavetas e encontrar mais um gol da Alemanha. Se Dilma deixasse sua cadeira, poderiam encontrar mais um gol da Alemanha embaixo dela.

Continuo defendendo o direito ao delírio e, claro, as opiniões. Lula disse na África do Sul que os outros países viriam disputar o segundo lugar, porque a Copa era nossa. Parreira disse que estávamos com a mão na taça. Felipão elogiou o próprio trabalho e o da geração tóis, que se define com um movimento de braços que faz um T, o mesmo com que Dilma posou na internet quando as coisas iam bem. A geração tóis, que se descreve com os braços, na verdade, deu uma banana para os que esperavam, ao menos, a garra dos argelinos.

Livre do furor patriótico, estimulado pelo governo e por grandes empresas envolvidas, é possível agora pensar com calma.

Como encarar com otimismo uma seleção que toma a família como modelo? Nada contra a família, respeito a opinião do herói da torcida, David Luiz: sexo só depois do casamento. Mas a família não é a forma adequada para desenvolver um trabalho desse tipo. Entre crises de choro e rezas, os jogadores se desmanchavam. E os psicólogos diziam que era o peso de tanta expectativa nacional. Somos o único país do mundo onde torcida a favor é vista como um fator negativo.

A torcida foi ótima. Não podia ser a mesma do Taiti, porque levamos o Brasil a sério no quesito futebol. Os inúmeros canais de TV nos puseram, nos últimos anos, em contato com o futebol de quase todo o mundo. Campeonatos espanhol, inglês, alemão. Era possível ver uma evolução maior que a brasileira. Mas isso era uma evidência para os que gostam e acompanham o futebol, embora muitos cronistas se tenham deixado levar pela emoção patriótica.

A cúpula do futebol está apodrecida. Talvez venha agora uma mudança, já que o foco está na análise da catastrófica participação brasileira na Copa. Mas quantas coisas não estão decadentes no Brasil e ainda estão camufladas? A indústria está em decadência e seu movimento para baixo ainda não desperta o interesse nacional. A política está decadente, num nível de putrefação que os franceses definem como faisandé, o qual repugna até meu estômago de urubu.

Somos um povo alegre e comunicativo. Mas isso não supera uma lacuna em nossa educação: um esmagador número de monoglotas. Em 2008 tentei transformar isso num grande tema político. Avançamos muito pouco desde então e não há sinais de termos tomado consciência dessa fragilidade. Seria injusto com o marxismo atribuir a indiferença ao inglês a uma resistência ideológica. Os chineses não pensam assim e tratam de dar passos mais largos.

Sei que é difícil apontar essas lacunas. No Brasil vivemos num mundo tão extraordinário que temos de imitar o célebre urubu de Stanislaw Ponte Preta e voar de costas. Sobrevoar um país onde os jornais diziam que o zagueiro Dante iria ser um trunfo porque, jogando no Bayern, conhece os alemães. E nem uma vivalma para lembrar as fortíssimas evidências de que os alemães podiam também conhecer Dante.

Nos morros do Rio, estimulados por traficantes, alguns moradores chamam os adversários de alemães. Está na hora de nos abrirmos um pouco para algumas qualidades dos alemães.

Podemos ser um país melhor. Antes teremos de perder esse espírito de fodões de que com tóis ninguém pode, vem quente que estou fervendo. Ele favorece os apagões, nas semifinais da Copa ou na noite de núpcias. Foi-se o tempo em que pensávamos que os alemães eram limitados porque eram apenas organizados e bem treinados. São tudo isso e têm talento. É a única combinação que leva à vitória ou, ao menos, a uma derrota honrosa.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Mario Vargas Llosa: A máscara do gigante

O mito da seleção Canarinho nos fazia sonhar formosos sonhos. Mas no futebol, assim como na política, é mau viver sonhando e sempre preferível se ater à verdade, por mais dolorosa que seja

12 JUL 2014

Fiquei muito envergonhado com a cataclísmica derrota do Brasil frente à Alemanha na semifinal da Copa do Mundo, mas confesso que não me surpreendeu tanto. De um tempo para cá, a famosa seleção Canarinho se parecia cada vez menos com o que havia sido a mítica esquadra brasileira que deslumbrou a minha juventude, e essa impressão se confirmou para mim em suas primeiras apresentações neste campeonato mundial, onde a equipe brasileira ofereceu uma pobre figura, com esforços desesperados para não ser o que foi no passado, mas para jogar um futebol de fria eficiência, à maneira europeia.

Nada funcionava bem; havia algo forçado, artificial e antinatural nesse esforço, que se traduzia em um rendimento sem graça de toda a equipe, incluído o de sua estrela máxima, Neymar. Todos os jogadores pareciam sob rédeas. O velho estilo – o de um Pelé, Sócrates, Garrincha, Tostão, Zico – seduzia porque estimulava o brilho e a criatividade de cada um, e disso resultava que a equipe brasileira, além de fazer gols, brindava um espetáculo soberbo, no qual o futebol transcendia a si mesmo e se transformava em arte: coreografia, dança, circo, balé.

Os críticos esportivos despejaram impropérios contra Luiz Felipe Scolari, o treinador brasileiro, a quem responsabilizaram pela humilhante derrota, por ter imposto à seleção brasileira uma metodologia de jogo de conjunto que traía sua rica tradição e a privava do brilhantismo e iniciativa que antes eram inseparáveis de sua eficácia, transformando seus jogadores em meras peças de uma estratégia, quase em autômatos.

Não houve nenhum milagre nos anos de Lula, e sim uma miragem que agora começa a se dissipar

Contudo, eu acredito que a culpa de Scolari não é somente sua, mas, talvez, uma manifestação no âmbito esportivo de um fenômeno que, já há algum tempo, representa todo o Brasil: viver uma ficção que é brutalmente desmentida por uma realidade profunda.

Tudo nasce com o governo de Luis Inácio 'Lula' da Silva (2003-2010), que, segundo o mito universalmente aceito, deu o impulso decisivo para o desenvolvimento econômico do Brasil, despertando assim esse gigante adormecido e posicionando-o na direção das grandes potências. As formidáveis estatísticas que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística difundia eram aceitas por toda a parte: de 49 milhões os pobres passaram a ser somente 16 milhões nesse período, e a classe média aumentou de 66 para 113 milhões. Não é de se estranhar que, com essas credenciais, Dilma Rousseff, companheira e discípula de Lula, ganhasse as eleições com tanta facilidade. Agora que quer se reeleger e a verdade sobre a condição da economia brasileira parece assumir o lugar do mito, muitos a responsabilizam pelo declínio veloz e pedem uma volta ao lulismo, o governo que semeou, com suas políticas mercantilistas e corruptas, as sementes da catástrofe.

A verdade é que não houve nenhum milagre naqueles anos, e sim uma miragem que só agora começa a se esvair, como ocorreu com o futebol brasileiro. Uma política populista como a que Lula praticou durante seus governos pôde produzir a ilusão de um progresso social e econômico que nada mais era do que um fugaz fogo de artifício. O endividamento que financiava os custosos programas sociais era, com frequência, uma cortina de fumaça para tráficos delituosos que levaram muitos ministros e altos funcionários daqueles anos (e dos atuais) à prisão e ao banco dos réus.

As alianças mercantilistas entre Governo e empresas privadas enriqueceram um bom número de funcionários públicos e empresários, mas criaram um sistema tão endiabradamente burocrático que incentivava a corrupção e foi desestimulando o investimento. Por outro lado, o Estado embarcou muitas vezes em operações faraônicas e irresponsáveis, das quais os gastos empreendidos tendo como propósito a Copa do Mundo de futebol são um formidável exemplo.

O governo brasileiro disse que não havia dinheiro público nos 13 bilhões que investiria na Copa do Mundo. Era mentira. O BNDES (Banco Brasileiro de Desenvolvimento Econômico e Social) financiou quase todas as empresas que receberam os contratos para obras de infraestrutura e, todas elas, subsidiavam o Partido dos Trabalhadores, atualmente no poder. (Calcula-se que para cada dólar doado tenham obtido entre 15 e 30 em contratos).

As obras em si constituíam um caso flagrante de delírio messiânico e fantástica irresponsabilidade. Dos 12 estádios preparados, só oito seriam necessários, segundo alertou a própria FIFA, e o planejamento foi tão tosco que a metade das reformas da infraestrutura urbana e de transportes teve de ser cancelada ou só será concluída depois do campeonato. Não é de se estranhar que o protesto popular diante de semelhante esbanjamento, motivado por razões publicitárias e eleitoreiras, levasse milhares e milhares de brasileiros às ruas e mexesse com todo o Brasil.

As cifras que os órgãos internacionais, como o Banco Mundial, dão na atualidade sobre o futuro imediato do país são bastante alarmantes. Para este ano, calcula-se que a economia crescerá apenas 1,5%, uma queda de meio ponto em relação aos dois últimos anos, nos quais somente roçou os 2%. As perspectivas de investimento privado são muito escassas, pela desconfiança que surgiu ante o que se acreditava ser um modelo original e resultou ser nada mais do que uma perigosa aliança de populismo com mercantilismo, e pela teia burocrática e intervencionista que asfixia a atividade empresarial e propaga as práticas mafiosas.

Apesar de um horizonte tão preocupante, o Estado continua crescendo de maneira imoderada – já gasta 40% do produto bruto – e multiplica os impostos ao mesmo tempo que as “correções” do mercado, o que fez com que se espalhasse a insegurança entre empresários e investidores. Apesar disso, segundo as pesquisas, Dilma Rousseff ganhará as próximas eleições de outubro, e continuará governando inspirada nas realizações e logros de Lula.

Se assim é, não só o povo brasileiro estará lavrando a própria ruína, e mais cedo do que tarde descobrirá que o mito sobre o qual está fundado o modelo brasileiro é uma ficção tão pouco séria como a da equipe de futebol que a Alemanha aniquilou. E descobrirá também que é muito mais difícil reconstruir um país do que destruí-lo. E que, em todos esses anos, primeiro com Lula e depois com Dilma, viveu uma mentira que seus filhos e seus netos irão pagar, quando tiverem de começar a reedificar a partir das raízes uma sociedade que aquelas políticas afundaram ainda mais no subdesenvolvimento. É verdade que o Brasil tinha sido um gigante que começava a despertar nos anos em que governou Fernando Henrique Cardoso, que pôs suas finanças em ordem, deu firmeza à sua moeda e estabeleceu as bases de uma verdadeira democracia e uma genuína economia de mercado. Mas seus sucessores, em lugar de perseverar e aprofundar aquelas reformas, as foram desnaturalizando e fazendo o país retornar às velhas práticas daninhas.

Não só os brasileiros foram vítimas da miragem fabricada por Lula da Silva, também o restante dos latino-americanos. Por que a política externa do Brasil em todos esses anos tem sido de cumplicidade e apoio descarado à política venezuelana do comandante Chávez e de Nicolás Maduro, e de uma vergonhosa “neutralidade” perante Cuba, negando toda forma de apoio nos organismos internacionais aos corajosos dissidentes que em ambos os países lutam por recuperar a democracia e a liberdade. Ao mesmo tempo, os governos populistas de Evo Morales na Bolívia, do comandante Ortega na Nicarágua e de Correa no Equador – as mais imperfeitas formas de governos representativos em toda a América Latina – tiveram no Brasil seu mais ativo protetor.


Por isso, quanto mais cedo cair a máscara desse suposto gigante no qual Lula transformou o Brasil, melhor para os brasileiros. O mito da seleção Canarinho nos fazia sonhar belos sonhos. Mas no futebol, como na política, é ruim viver sonhando, e sempre é preferível – embora seja doloroso – ater-se à verdade.

Pondé: Amarelou

Acho excessiva a ideia de que a derrota (merecida) do Brasil para a Alemanha demande cuidados especiais para com as crianças ou os adultos. Afinal, "é só futebol". Parece-me um tanto ridícula toda essa frescura com o "Mineiraço". Mas vivemos mesmo num mundo meio ridículo em que todo mundo precisa de "cuidados".

A inflação do afeto tornou-se valor. Esses exageros têm um valor evidente: escondem, como todo mundo sabe, o medo. Isso nunca dá certo na vida real. E a seleção amarelou mesmo. Não aguentou a pressão. E o povo esperava apenas uma coisa: sucesso. Não se perdoa o fracasso, ainda que um monte de gente diga o contrário, e diga isso por mau-caratismo ou porque quer vender autoestima.

Por outro lado, sim, precisamos de cuidados psicológicos para viver. A vida moderna nos brinda com incertezas, ambivalências, dúvidas quanto aos afetos, aos valores, aos horizontes, aos comportamentos. Os modos antigos de vida não servem mais porque (supostamente) não dão conta da complexidade da vida. Já disse nesta coluna algumas vezes que duvido dessa história de que o mundo mudou muito. Acho que tem muito papo furado nessa história de "as novas gerações têm uma outra cabeça" (a frase é ridícula por si só). Mudou o cenário, o enredo continua sendo escrito pelo bobo de "Macbeth".

Mas, sem dúvida, "futebol é mais do que apenas futebol". Não, não estou me contradizendo. O esporte é parte da cultura e, portanto, futebol é, num certo sentido, mais do que futebol. Mesmo que não tenha uma relação direta com o resultado das urnas ou com as decisões de consumo, a seleção é parte do universo de representações culturais que os brasileiros têm de si mesmos. E esse 7 X 1 é mais uma crise de representação num mar de crises de representações no Brasil desde o ano passado.

E nesse sentido, o futebol, como o grande Nelson Rodrigues dizia, é uma tragédia grega. Cai bem chamar os estádios de arenas, já que os jogares são um pouco como gladiadores. E o comportamento da torcida é um pouco como o da torcida que assistia aos gladiadores na antiga Roma: o povo podia passar do desprezo à misericórdia, ou o inverso, em segundos, caso julgasse que um gladiador ou outro merecia uma das duas atitudes. Um dia a seleção brasileira é inspiração para os jovens, outro dia é alvo de laranja podre. O fã é um infiel por excelência.


O povo, ao contrário do que a esquerda mentirosa e os marqueteiros dizem (ambos dizem isso por interesses comerciais, só que os marqueteiros são honestos e confessam), nunca foi de confiança.


Quer um exemplo de que, apesar de todo o blablabá emocional e "psi" ao redor do fracasso da seleção, o mundo não mudou? Vejamos:

Nas antigas arenas romanas, o povo podia ser misericordioso ou cruel segundo alguns critérios, um deles se o gladiador resistia ou não à pressão da luta. Uma velha virtude em jogo: a coragem.

Infelizmente, a seleção brasileira não resistiu à pressão. Amarelou. Claro, não jogava bem, bons jogares sem conjunto e tudo aquilo que os especialistas já falaram. Mas, além disso, ficou clara a dificuldade de suportar a enorme pressão de um povo com uma expectativa excessiva em relação à Copa em casa.

Podemos apontar a diferença entre, por exemplo, holandeses e alemães e seu futebol "científico", por oposição ao nosso latino-americano, o futebol-arte. Mas tudo isso é passado. Não existe futebol-arte, assim como não existem mais vovôs e vovós (estão todos na academia querendo se parecer com os netos). Mas temo que o problema foi além disso.

A seleção foi bem representativa da cultura brasileira dos últimos tempos. Chorona, ressentida, delirante, sem resultados.

Com a era Lula, muitos acreditaram mesmo que sairíamos do buraco com a "bolsa-voto", casas de graça, carros sem impostos e outras invenções baratas.

A palavra "autoestima" foi muito ouvida nos últimos tempos, principalmente na Copa. É comum hoje as pessoas acharem que todo mundo (e a mídia também) deve se preocupar antes de tudo com a autoestima das pessoas. Discordo. É este mundo da autoestima que forma os amarelões.

domingo, 13 de julho de 2014

Éder Souza: Cotas raciais e o racismo do movimento de negros

As cotas interessam a grupos políticos que querem manter os negros sob domínio ideológico, através da política de estratificação social e da conquista de “feudos” e reservas de mercado.

Um dos debates sociais mais importantes da contemporaneidade brasileira é a questão do acesso à universidade por parte das populações menos favorecidas, em sua maioria compostas de negros, que estão em situação de clara desvantagem em relação a outras etnias, principalmente os brancos, quando se trata de educação universitária. Necessário é garantir a oportunidade das diversas etnias de terem acesso à universidade, de forma democrática e republicana no sentido de res publica, que significa “cuidado com a coisa pública”.

O movimento negro, desde o fim dos anos 1980, vendo a disparidade de negros na universidade, pede por cotas raciais para permitir o ingresso dos negros no ensino superior, aos seus olhos um local elitista, racista, com uma “meritocracia injusta” que impedia o acesso do negro. As cotas reparariam a opressão que o negro sofreu durante séculos de escravização e marginalização na sociedade brasileira. Políticas públicas artificiais solucionariam o problema.

Cabe matizarmos a argumentação acima. Primeiramente, devemos pensar no papel da universidade na sociedade. Ela, primeiramente, tem o papel de desenvolver a pesquisa científica em diversos ramos do conhecimento, para o desenvolvimento de toda uma comunidade. Para que essa tarefa se realize, é necessário que a universidade recrute para seus quadros pessoas que possuem pré-requisito educacional e intelectual para desenvolver tais pesquisas. Por isso ela necessariamente tem que possuir um caráter meritocrático em suas admissões, que devem passar ao largo de questões étnico-raciais. A universidade não deve ser local de compensações de supostas “dividas históricas”. Nesse quadro, a universidade não reconhece qualquer outro critério que não seja o conhecimento adquirido pelos pleiteantes às vagas disponíveis; o pleito é impessoal e não questiona a etnia ou procedência da pessoa que a ele se submete.

Isso não significa que a universidade está descolada do que ocorre ao seu redor, como um ser que paira acima da sociedade. Ao contrário, ela etá completamente integrada na questão social, o que fica óbvio quando olhamos o quem está dentro da universidade pública: pessoas cujas famílias, em sua maior parte, tiveram a possibilidade de pagar por uma educação de qualidade. Isso mostra que o Estado não cumpre o seu papel na educação de base, pois, mesmo pagando impostos altíssimos, quem deseja ter uma educação de qualidade tem que pagar uma escola particular.

Percebe-se que o problema fundamental está na relação que o Estado e a sociedade têm com a educação de base. Em um país onde mais de 70% dos alunos concluem o ensino médio sendo analfabetos funcionais, e por volta de 50% dos universitários também o são, ranqueado entre os últimos em qualidade educacional no mundo, está muito claro que a questão maior não é a universidade, mas sim o ensino básico deficiente ofertado pelo governo para a maior parte da população.

Como o governo é especialista em quebrar a perna do cidadão e depois oferecer muletas argumentando que “sem mim você não andaria”, para ele é interessante não resolver uma questão espinhosa como a educação de base e, ao invés, dizer que solucionará o problema do acesso desigual à universidade fornecendo cotas, o que sem dúvida é uma medida de impacto imediatista, marqueteira e eleitoreira. Por isso, para o governo é mais lucrativo incentivar as pautas do movimento negro, que tem em suas lideranças pessoas ávidas por estarem dentro da estrutura do Estado para poder influenciar políticas públicas. Então, estamos diante de um problema maior do que cotas ou não cotas. A questão que deve realmente nortear o debate é, de um lado, o desemprenho das políticas estatais de formação educacional dos cidadãos e, de outro, as ações de grupos do movimento negro que se utilizam da política de cotas como instrumento para alcançar influência dentro do Estado.

Neste último aspecto, temos que analisar uma questão fundamental: quem são os maiores financiadores das ONGs de ativistas negros? Essas ONGs, em sua grande parte, têm forte financiamento estatal. Agora se perguntem: o Estado daria dinheiro para esses grupos se suas políticas não interessasse a ele? Claro que não.

O Estado financia certas lideranças e grupos, e os favorece para a implementação de pautas como as cotas, porque com isso obterá três vantagens: 1)dará a impressão que está interessado nos negros como agentes políticos; 2)desviará o foco da educação de base; e 3)incentivará a estereotipagem inversa da identidade do “negro”.

A estereotipagem inversa da identidade do negro significa que o negro que quiser ser considerado negro de fato terá que apoiar as pautas dos “movimentos afirmativos”, que dizem lutar por todos os negros e se autointitulam representantes da raça. Mas como qualquer grupo humano é composto de indivíduos diferenciados, com valores e pensamentos diversos, devemos entender que características são necessárias para que se considere alguém um “bom” negro sob a ótica do movimento que diz representá-lo.

Para essa gente, só pode ser bom o negro que está “em luta”, e apenas luta o bom combate aqueles que lutam as guerras que esse movimento decide que devem ser guerreadas; se discorda das pautas do movimento, como as cotas, o indivíduo é chamado de “negro de alma branca”, o que significa estar vendido ao outro lado, um alienado ou mal intencionado. O movimento cumpre o papel de capitão-do-mato do próprio negro, ao tirar sua liberdade de ser um indivíduo autônomo que pensa por si e chega às próprias conclusões.

Por isso que, no fim das contas, é equivocado chamar esse movimento de “movimento negro”, pois o título sugere que suas lideranças representam o pensamento monolítico dos negros. O movimento deve ser chamado de movimento de negros, pois apenas alguns negros compartilham de suas ideias e a ele se associam voluntariamente. A partir de agora, é assim que o chamarei.

O movimento de negros tem uma pauta de poder. As camisetas 4P (Poder Para o Povo Preto) não são mero acaso. Iludidos com o poder do Leviatã, do Estado onipotente que tudo pode com apenas uma canetada, ele sonha em dirigir a sociedade, achando-se capaz de comandar através de suas estruturas todo o corpo social, apostando na tática de dividir para dominar, apostando em um confronto racial, uma versão racialista da luta de classes marxista, pregando muitas vezes o ódio racial inverso ou a punição a “negros dissidentes”, versão repaginada dos “negros fujões” das plantations da era colonial.

Exemplo disso foi quando a ex-ministra da Igualdade Racial, Matilde Ribeiro, disse em uma entrevista à BBC que considera natural a discriminação de negros contra brancos, afirmando que “a reação de um negro de não querer conviver com um branco, ou não gostar de um branco, eu acho uma reação natural, embora eu não esteja incitando isso. Não acho que seja uma coisa boa. Mas é natural que aconteça, porque quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou.”

A ministra esqueceu que a esmagadora maioria dos brancos de hoje não têm nada a ver com a escravização de negros. Grande parcela da população branca descende de famílias de imigrantes que chegaram aqui em uma situação de penúria e estavam quase tão mal socialmente quanto os negros. O que dizer dos japoneses, que chegaram extremamente discriminados e conseguiram se tornar um grupo bastante forte na sociedade, constituindo 30% dos estudantes das melhores universidades do país enquanto são apenas 5% da população geral? E dos judeus, que são 3% da população mundial e menos 1% da população brasileira? Esses brancos açoitaram quem? Será que também, como os negros, não foram açoitados, mas se sobressaíram através de seus próprios esforços?

Além da fala racista da ministra, há demonstrações de que o movimento de negros em sua maioria busca um revanchismo contra os brancos, tendo um discurso de incentivo à vingança e ao ódio. Exemplo é o vídeo “Cotas, essa conversa não é sobre você”, que discrimina os brancos ao querer impedi-los de participar do debate público de um assunto que os afeta diretamente, além de estereotipá-los todos como playboys ricos.

As perseguições racistas a Joaquim Barbosa, aliado de longa data de diversos movimentos de negros (mas que contrariou interesses do PT), mostram bem como o negro que tem posições políticas diferentes das do movimento é tratado com desprezo. Quando, durante o julgamento do mensalão, o ministro do STF começou a sofrer ataques racistas sistemáticos, tendo sido chamado de “capitão do mato”, “negro traidor”, “negro ingrato”, não se viu defesa sua por parte do movimento de negros. Ao contrário, vimos um deputado negro do PT dizer o seguinte: “Negros que usam o chicote para bater em outros negros não são meus irmãos. O Joaquim Barbosa não é meu irmão”. Na lógica distorcida do deputado petista, o negro que Joaquim Barbosa chicoteou é nada mais nada menos do que… José Dirceu.

E onde estava o movimento de negros quando Heraldo Pereira, o primeiro negro a estar na bancada do Jornal Nacional, processou por uma injúria racista o jornalista Paulo Henrique Amorim, que o chamou de “negro de alma branca”? Vou dizer onde ele estava: defendendo Amorim, com o argumento de que este era um oprimido, não um racista, o racista verdadeiro sendo Heraldo Pereira, pois trabalhava na Rede Globo. Para o movimento, então, o negro que trabalha na Globo não é negro, é apenas um ser que não vale nada e deve ser ofendido até mesmo com ataques racistas.

Prova maior que o movimento de negros existe apenas para defender suas pautas estreitas foi quando acusaram um comerciante carioca de racismo por vender a boneca negra mais barata que a boneca branca. Como se o comerciante tivesse culpa de haver maior procura pelas bonecas brancas. Percebe-se que o movimento de negros está mais preocupado em defender bonecas do racismo que gente de carne e osso, se isso interessar suas políticas racialistas.

Sobre as cotas raciais, onde foram implementadas, não deram certo. Fracassaram na Índia, Nigéria e EUA. Fracassaram por um simples motivo, já explicado por Mises: políticas públicas que buscam moldar uma sociedade frequentemente alcançam resultados inversamente proporcionais ao que desejam. Thomas Sowel completou, com o brilhantismo que lhe é habitual, que a ideia de que a cota é temporária e perdurará até a igualdade racial ser alcançada é absurda, visto que, como em nenhuma sociedade isso foi alcançado, portanto a cota tende a ser uma política eterna.

Política eterna que interessa a grupos políticos que querem manter os negros sob domínio ideológico, através da política de estratificação social e da conquista de “feudos” e reservas de mercado.

Como escapar dessa tentativa de dominação e dar ao negro uma verdadeira liberdade? A única forma é construir uma sociedade meritocrática, onde o que vale é a capacidade individual de cada um, não quaisquer outros atributos, seja a etnia, orientação sexual etc. Os negro e outras minorias oprimidas não têm que exigir que o Estado os tutele com reservas de mercado ou leis específicas, mas sim que o Estado cumpra bem o seu papel mínimo. A meritocracia social absoluta é impossível, pois há diversos fatores sociais e de nascimento que beneficiam uns e prejudicam outros; porém, possibilitar e incentivar a ascensão social pelo mérito individual é a base da construção de uma sociedade saudável.

Para tanto, é indispensável uma educação de qualidade a todos, permitindo igualdade de oportunidades. Tornar o negro igual ao branco socialmente é fazê-lo ver além da cor da pele, é fazê-lo ver que somente se posicionando como cidadão que exige igualdade perante à lei, e um Estado competente que o deixe livre para perseguir seus objetivos, é que haverá real emancipação. Quando, como Morgan Freeman, nos recusamos a comemorar dias de “consciência negra” ou aceitar coisas abjetas como “hinos à negritude”, é que nos vemos como iguais.

A ciência provou que o conceito de raça, criado no século XIX, é um fato superado. Neguinho da Beija Flor, por exemplo, tem 70% de DNA branco, e um nazista declarado norte-americano possui 40% de DNA negro. Essa descoberta é um alívio, pois os maiores crimes do século XX se deram em nome de ideologias políticas, do Estado e em defesa de uma raça — esses três elementos são os eixos basilares do movimento de negros.


O sonho do Martin Luther King, que deseja que um dia seus filhos sejam vistos não pela cor da pele, mas pelo caráter, é o ideal a ser buscado em uma sociedade democrática, que não faz de especificidades étnicas fronteiras a serem solidificadas, mas riquezas a serem agregadas a uma comunidade de cidadãos.

sábado, 12 de julho de 2014

Aloisio Amorim e Veja: O estrago que o chavismo fez na Venezuela

Do Blog do Aloisio Amorim

O que segue é um resumo de como um país como a Venezuela, que possui a maior jazida de petróleo do planeta, riquezas naturais variadas, clima excelente, as praias mais belas do Caribe, está sendo destruído pela loucura comunista.

Fosse um caso isolado, seria um alívio para o Brasil. Mas não é. A ditadura chavista implantada pelo finado caudilho Hugo Chávez, faz parte do esquema do Foro de São Paulo, organização esquerdista transnacional fundada por Lula e Fidel Castro em 1990, destinada a transformar a América Latina numa extensão de Cuba e a Venezuela é o país em que a aplicação do modelo preconizado pelo Foro de S. Paulo está mais avançado e esta é a razão dos conflitos que tem marcado esse país. A maioria dos venezuelanos repudia o comunismo e continua protestando nas ruas. Os líderes da oposição verdadeira nesse país estão presos nos calabouços da polícia política. Os chefes das Forças Armadas foram comprados pelo chavismo. A escassez de alimentos, medicamentos e até papel higiênico e caixões de defunto transformaram a vida dos venezuelanos no verdadeiro inferno.

Agora uma pesquisa revela que 1,7 milhão de jovens venezuelanos não trabalham e não estudam. O país se tornou um caldeirão de violência sob total impunidade. Os comunistas consideram bandidos como “excluídos”. A Venezuela se tornou um dos países mais violentos do mundo com dezenas de assassinatos diariamente.
Como disse no início destas linhas, o caso venezuelano não é isolado, pois o partido chavista é irmão siamês do PT. Lula, Dilma e seus sequazes são amigos e irmãos de fé dos chavistas. Há alguns dias, a Dilma assinou o decreto 8.243, que cria as comunas (sovietes), ditos “conselhos populares”, que serão constituídos pelos tais “movimentos sociais”, todos eles dirigidos pelos próprio PT. Assim também ocorreu na Venezuela, onde o chavismo organizou centenas de “coletivos”.

O Brasil será a Venezuela amanhã? Será se os brasileiros continuarem insistindo em fechar os olhos sobre a revolução comunista que está em andamento no Brasil. Como já expliquei diversas vezes aqui no blog, essa revolução comunista não tem mais nada a ver com guerrilhas e assaltos se davam no passado. Ela é realizada na base da corrupção e da doutrinação por meio das escolas e da grande mídia, principalmente. Lembram-se do mensalão? Pois é. O mensalão foi um dos artifícios utilizados pelo PT para adiantar os passos rumo à comunização do Brasil. O plano foi abortado por pura sorte e o PT fez um recuo estratégico, mas não desistiu nem desistirá de seu intento de transformar o Brasil numa republiqueta comunista no mesmo estilo da Venezuela.

A seguir, vejam o que está ocorrendo na Venezuela. O futuro institucional do Brasil está nas mãos dos brasileiros. Se insistirem em continuar votando nos candidatos do PT em todos os níveis, o Brasil será a Venezuela amanhã. Leiam e compartilhem este material com seus amigos por email e pelas redes sociais:

A situação econômica e social da juventude venezuelana está longe do discurso oficial. Segundo pesquisa feita pelo Instituto de Pesquisa Econômica e Social da Universidade Católica, cerca de 1,7 milhão de venezuelanos com idades entre 15 e 29 anos não têm trabalho e nem frequentam escola ou universidade. Dos 7,6 milhões de pessoas nessa faixa etária, apenas 42% frequentam alguma instituição de ensino, afirma nesta sexta-feira ao jornal El Universal a coordenadora da Pesquisa Nacional da Juventude, Anitza Freitez. Entre os jovens da chamada geração ‘ni-ni’ (ni trabajan, ni estudian, ou, em português, não trabalham e nem estudam), há 900.000 que sequer completaram o ensino secundário.

A ampla pesquisa foi um esforço para preencher uma lacuna nos dados estatísticos venezuelanos, já que o último estudo semelhante foi realizado em 1993. Nos últimos 20 anos, a população jovem da Venezuela aumentou de 5,9 milhões de pessoas para 7,6 milhões, mas poucas foram as propostas de políticas públicas para atender as necessidades desse segmento da sociedade. De acordo com Anitza Freitez, os dados mostram que, embora nos primeiros anos do chavismo tenha havido expansão nas matrículas, isso não significa que os jovens consigam levar os estudos adiante.

CRIMINALIDADE ALTA
A criminalidade disparou na Venezuela ao longo dos 14 anos de governo Chávez. Em 1999, quando se elegeu, o país registrava cerca de 6 000 mortes por ano, a uma taxa de 25 por 100 000 habitantes, maior que a do Iraque e semelhante à do Brasil, que já é considerada elevada. Segundo a ONG Observatório Venezuelano de Violência (OVV), em 2011, foram cometidos 20 000 assassinatos do país, em um índice de 67 homicídios por 100.000 habitantes. Em 2013, foram mortas na Venezuela quase 25 000 pessoas, cinco vezes mais do que em 1998, quando Hugo Chávez foi eleito.

Apesar de rica em petróleo, a Venezuela é o país com a terceira maior taxa de homicídios do mundo, atrás de Honduras e El Salvador. Entre as razões para tanto está a baixa proporção de criminosos presos. Enquanto no Brasil a média é de 274 presos para cada 100 000 habitantes, na Venezuela o índice está em 161. De acordo com uma ONG que promove os direitos humanos na Venezuela, a Cofavic, em 96% dos casos de homicídio os responsáveis pelos crimes não são condenados.

INFLAÇÃO GALOPANTE
A economia venezuelana tem um histórico de inflação alta, desde antes de Chávez chegar ao poder. Contudo, a gastança pública aliada a uma política expansionista e estatizante fez com que a alta dos preços atingisse níveis absurdos. Segundo o FMI, a inflação anual venezuelana fechou 2012 a 26,3%. Em 2013, o índice fechou em 56%, a mais alta taxa do continente americano e mais do que o dobro da registrada no país no ano anterior. Os números poderiam ser muito piores se não fosse o controle de preços exercido pelo governo. No entanto, essa regulação afetou a produção e levou a escassez de alimentos básicos como leite, carne e até papel higiênico. A desvalorização de mais de 30% da moeda, que entrou em vigor em fevereiro, fez com que alguns preços duplicassem.

DESMONTE DAS INSTITUIÇÕES
Em 1999, Chávez aprovou uma nova Constituição que eliminou o Senado e estendeu seu mandato para seis anos, além de conseguir uma lei que lhe permitia governar por decreto. A concentração de poderes promovida pelo caudilho, no entanto, não se restringiu ao Legislativo. O Judiciário foi tomado por juízes alinhados ao chavismo. A cúpula das Forças Armadas também demonstrou lealdade ao coronel logo depois de anunciada sua morte, quando as tropas foram colocadas nas ruas com o objetivo declarado de “manter a ordem”. “Vida longa, Chávez. Vida longa, revolução”, bradou o ministro da Defesa, Diego Alfredo Molero Bellavia. A oposição em várias oportunidades pediu a obediência à Constituição.

A imprensa também não escapou do controle imposto por Chávez. Em 2007, o governo não renovou a concessão do maior canal de televisão venezuelano, a RCTV. A Globovisión, única emissora que ainda mantinha uma linha crítica ao governo, também foi vendida.

PDVSA EM RUÍNAS (A PDVSA é a Petrobras de lá)
O petróleo, extraído quase inteiramente pela PDVSA, a Petrobras da Venezuela, é responsável por 50% das receitas do governo venezuelano. Além do prejuízo de uma economia não diversificada, Chávez demitiu em 2003 40% dos funcionários da companhia após uma greve geral e os substituiu por aliados. A partir daí, as metas de investimento não foram cumpridas e a produção estagnou.

O plano de investimentos da PDVSA divulgado em 2007 previa a produção de 6 milhões de barris por dia este ano, mas entrega menos da metade. A exploração de petróleo caiu de 3,2 milhões de barris diários (em 1998) para 2,4 milhões (dado de 2012). O caudilho foi beneficiado, no entanto, pelo aumento do preço do produto e usou a fortuna para financiar programas assistencialistas e comprar aliados na América Latina.

O presidente Nicolás Maduro deu continuidade às ‘misiones’, como são conhecidos os programas assistencialistas. O desafio será mantê-los e ainda investir na petrolífera e aumentar a produção.

CRISE ELÉTRICA
Entre o final de 2009 e início de 2010, a Venezuela sofreu uma crise no setor elétrico, agravada pela estiagem que reduziu drasticamente os níveis dos rios que alimentam as hidrelétricas. Preocupado em ajudar financeiramente os aliados latino-americanos, o governo Chávez deixou de investir em novas usinas. E as companhias do setor elétrico, sob a praga da gestão chavista, tiveram queda na produção por falta de manutenção, corrupção e aumento escandaloso do número de funcionários. A crise foi tão grave que paralisou vários setores da economia e obrigou o governo a declarar estado de emergência no país.

Para contornar a situação, Chávez propôs o “banho socialista” de três minutos, pediu para os venezuelanos usarem lanternas para ir ao banheiro no meio da madrugada e exortou as grandes empresas a gerar sua própria eletricidade. Em 2012, Chávez reconheceu que a Venezuela ainda sofria com problemas elétricos, mas disse que, se não tivesse chegado ao poder em 1999, o país se iluminaria com lanternas e cozinharia com lenha.

O fato é que ainda hoje apagões são registrados em todo o país. O discurso de Nicolás Maduro agora é colocar a culpa nos “inimigos da pátria”, que estariam sabotando o sistema de energia.

EXPORTAÇÃO DO BOLIVARIANISMO
Boa parte dos recursos do petróleo venezuelano foi usada por Chávez para comprar aliados na região e ampliar o alcance de sua ‘revolução bolivariana’. O maior beneficiário é Cuba, cuja mesada vinda dos cofres venezuelanos equivale a 22% do PIB - a ilha foi o destino do coronel ao longo de todo o tratamento contra o câncer e a oposição venezuelana denuncia a interferência dos irmãos Castro na política do país. Chávez também abasteceu o caixa de campanha de candidatos presidenciais populistas na América Latina e Central, como Cristina Kirchner, na Argentina, Evo Morales, na Bolívia, e  Daniel Ortega, na Nicarágua.

ENDIVIDAMENTO ESTATAL
Durante a era Chávez, o endividamento do governo subiu de 37% para 51% do PIB. A dívida pública externa oficial está em 107 bilhões de dólares, sem contar a dívida da PDVSA com fornecedores e sócios e os débitos do governo com empresas expropriadas. No total, a conta deve chegar a 140 bilhões de dólares.

FALTA D’ÁGUA

O governo da Venezuela anunciou no início de maio um plano de racionamento em Caracas que deixa parte dos seis milhões de habitantes sem acesso à água por até três dias por semana. O plano de emergência é necessário para contornar a severa seca que o país enfrenta, disseram as autoridades. No entanto, o governo omitiu que nenhum reservatório foi construído durante os 15 anos de chavismo. Tampouco houve a elaboração de um plano de economia de água, necessário em regiões que sofrem com secas sazonais.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Estadão: “Dilmar” tropeça na bola

Depois da partida de sexta-feira, em que o Brasil venceu a Colômbia e perdeu Neymar, a equipe da presidente Dilma Rousseff programou para daí a três dias um bate-papo entre ela e internautas sobre um único e óbvio assunto: a Copa. Tanto se tratava de uma jogada eleitoral que a primeira ideia foi usar a página que o PT administra na rede social em nome da candidata. Aí, abandonando-se ao cinismo, resolveram dar um tom “institucional” à marquetagem, transferindo a conversa para a página oficial da Presidência da República.

Foi tudo confeccionado para parecer uma interlocução natural entre a dirigente do País e cidadãos-torcedores, na véspera da penúltima das sete etapas que a seleção precisa superar para chegar ao hexa. Mas a manobra apenas serviu de escada para Dilma subir o tom dos ataques aos seus críticos, apropriar-se do bom andamento do Campeonato, como se fosse mais uma das incontáveis realizações fictícias do seu governo, e forçar uma identificação, para brasileiro ver, com o craque excluído das finais. “Dilmar” não se limitou a soltar o verbo fácil e ensaiado dos elogios ao ídolo “guerreiro” e da comunhão com a sua dor ao ser atingido, que “feriu o coração de todos os brasileiros”.

Mandando às favas o senso de ridículo que manda o respeito que se lhe atribua, colocou na internet uma foto em que aparece apoiando o braço esquerdo sobre o punho do direito, numa simulação patética do “É tóis”. Trata-se do divertido gesto que Neymar inventou para ilustrar a sua versão do dito “É nóis”, que se tornou uma das marcas desse jovem sempre criativo dentro e fora das quatro linhas. Bem que a presidente, ela mesma, avisou há pouco mais de um ano: “Podemos fazer o diabo quando é hora de eleição”. Infernal, festejou a “belezura” que enxerga no torneio apenas para distribuir caneladas, chamando os adversários, grosseiramente, de “urubus”.

Ela os culpa pelo “indevido pessimismo” que antecedeu a Copa. Indevido por quê? A imprensa - a ré que ela se guardou de nominar - deu margem, sim, a fundamentadas dúvidas sobre o preparo do País para acolher o mais popular evento esportivo do mundo, ao descobrir, divulgar e debater os muitos malfeitos (em todos os sentidos do termo) que precederam a competição. Não fez mais do que o seu dever. Se isso ressoou no Planalto como oposicionismo, nada mais adequado, também. “Jornalismo é oposição”, dizia o genial Millôr Fernandes (1923-2012). “O resto é armazém de secos e molhados.” Se, afinal, tudo acabou bem - descontado o viaduto que desabou em Belo Horizonte, matando dois -, tanto melhor. Mas não foi por obra e graça da presidente.

Esperta, Sua Excelência. Em dado momento do chat, para desdenhar das críticas, ela equiparou as previsões pessimistas em relação à Copa às que cercam, com mais razão ainda, o desempenho da economia este ano. A taxa do PIB em 12 meses mal supera 1%. Ninguém com a cabeça minimamente no lugar aposta numa metamorfose que redima os desastres da política econômica. Mas - e aí reside a esperteza dilmista - o resultado final do ano só será conhecido em começos de 2015. A essa altura, a presidente ou terá sido reeleita ou terá deixado o Planalto. Em qualquer hipótese, não haverá quem perca o seu tempo lhe cobrando o despropósito de agora.

Bem pensadas as coisas, o empenho da candidata em tirar proveito eleitoral da festa esportiva, para não falar do que fará se a seleção for campeã, parece ignorar dois fatos básicos. De um lado, se é verdade que aumentou a adesão popular à realização do evento no Brasil - ajudando a presidente a subir três pontos na mais recente pesquisa -, é verdade também que, na casa de 63%, o apoio à Copa seria notável nos Estados Unidos, digamos, mas está aquém do que se poderia esperar no país do futebol, na pátria em chuteiras. De outro lado, não há relação previsível entre o desfecho do Campeonato e o da disputa nas urnas. O Brasil pode ganhar, e Dilma perder. Ou vice-versa. Seja lá o que se possa supor a respeito está confinado ao rarefeito espaço das probabilidades.

Oitenta e quatro dias separam a final do próximo domingo e a votação no primeiro domingo de outubro. Esses são, metaforicamente, os 90 minutos decisivos.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Mariana Sanches e Thiago Herdy: Dilma perde dois milhões de votos no entorno de grandes capitais

O novo obstáculo para a reeleição de Dilma Rousseff não mora no Leblon, nem nos Jardins. Tampouco no sertão nordestino ou no Vale do Jequitinhonha. Não atende pelo nome de elite branca, nem tem cartão Bolsa Família. Está em boa parte nas regiões metropolitanas e ficou conhecido como classe C. O mesmo estrato social que ascendeu durante os anos Lula e deu suporte à candidatura Dilma tem desembarcado do governo em quantidade suficiente para levar a disputa ao segundo turno. É o que mostra a comparação entre a rejeição de Dilma em 2010 e em 2014, medida pelo Ibope.

Depois das manifestações de junho de 2013, a rejeição a Dilma aumentou não apenas nas regiões metropolitanas, mas também nas capitais e no interior. O sucesso da Copa no Brasil e o início da campanha podem alterar esse cenário e confirmar uma tendência de aumento de Dilma apontada pelo último Datafolha. No entanto, considerado o quadro atual descrito pelo Ibope, o maior desgaste da presidente ocorreu no entorno das capitais das nove principais regiões metropolitanas.

Em 2010, 23% dos moradores dessas cidades diziam que não votariam em Dilma "de jeito nenhum". Hoje, são 38%. Considerando-se apenas os eleitores das 178 cidades metropolitanas, ela passou a ser rejeitada por pelo menos 2 milhões de pessoas. Se a eleição fosse hoje, em um universo de 13,3 milhões de votos, ela não contaria com 5 milhões. Em 2010, o índice de rejeição retirava de Dilma 3 milhões de votos.

Não se pode dizer que os eleitores dos entornos das capitais, em média, pertençam à elite. É gente que, segundo analistas do Ibope, ganha entre dois e cinco salários mínimos, em geral. Segundo a última pesquisa do instituto, 42% dos eleitores nesta faixa de renda não votam em Dilma.

A pesquisa Datafolha divulgada na última semana também registra um percentual não desprezível de 36% de eleitores que não votariam de jeito nenhum em Dilma entre os que possuem renda familiar de dois a cinco salários mínimos. No Datafolha, Dilma recuperou quatro pontos percentuais e lidera a pesquisa com 38% das intenções de voto.

Os números das regiões metropolitanas e da classe C confirmam a preocupação de um dos principais ministros de Dilma, Gilberto Carvalho, o primeiro a admitir que as vaias a ela no Itaquerão não eram só expressão da insatisfação da "elite branca", como disse Lula no calor da repercussão dos xingamentos. Em entrevista à "Folha de S. Paulo", Carvalho se disse preocupado com "garçom falando que o PT é o mais corrupto" e "meninos no metrô puxando o coro do mesmo palavrão usado no estádio".

O ambulante Aílton Santos, de 47 anos, diz que não engrossaria o coro. Mas não está satisfeito com o governo Dilma, em quem votou.

- Não é que a situação esteja ruim, mas não melhorou conforme eu esperava.

Depois de comprar a prestações fogão e TV plana, ele esperava abrir sua loja e dispensar a barraquinha de óculos em Osasco, na Grande São Paulo. Votou com entusiasmo em Lula, em 2006 e em Dilma, em 2010. - Achava que o meu sonho fosse se realizar no governo dela. Mas continuo aqui. Enquanto o governo gastou com Copa, minha mulher teve que ser operada em outra cidade, porque aqui falta médico.

POPULAÇÃO QUE ASCENDEU NOS ANOS LULA QUER MAIS MELHORIAS
A elevação do custo de vida e do nível de exigência da classe C depois da ascensão social dos anos Lula são explicações para o aumento da rejeição de Dilma no entorno das capitais, segundo analistas ouvidos pelo GLOBO.

- Parte das classes populares da região metropolitana percebeu uma desaceleração da melhora na vida, um aumento no endividamento, no poder de compra da renda. E a expectativa desse grupo era de continuar ascendendo - afirma o cientista político Fernando Abrúcio, da FGV.

- O raciocínio é simples. Se você achava que ia ter uma Ferrari, mas no fim te sobra um carro 1.0, você fica descontente. Quanto mais você tem, mais você quer - acredita.

Nos últimos anos a auxiliar de limpeza Josinete Cassimiro, de 46 anos, comprou home theater, máquina de lavar e tanquinho graças ao acesso ao crédito que conseguiu na gestão Lula. Mas ela diz que “o salário não aumentou tanto quanto as despesas”.

- Esses governos ajudaram muito o pessoal do interior. Mas agora a Dilma precisava olhar mais para o pessoal das cidades - diz Josinete, que se ressente de não ter sido capaz de pagar faculdade de Administração para a filha de 18 anos. A adolescente teve que abandonar o curso e trabalhar para ajudar no sustento da casa. Josinete afirma que não votará mais em Dilma.

O fenômeno confirma um antigo temor que circulava entre os dirigentes do PT. Não é surpresa para eles que os eleitores da classe C, que carregaram Lula e Dilma rampa do Planalto acima, não tenham engrossado a fileira de militantes do partido e não tenham sentimento de fidelidade em relação à legenda.

- Até porque a condição de escolaridade e de renda dessas pessoas melhorou, elas foram ficando mais críticas e mais exigentes do que estavam em 2006 - afirma Márcia Cavallari, CEO do Ibope Inteligência.

Para Cavallari e Abrúcio, embora seja um dado fundamental para os rumos da eleição, a rejeição da presidente ainda pode mudar. O primeiro mês de propaganda eleitoral no rádio e na televisão deverá indicar a capacidade do governo de reverter esses números. A diminuição depende, sobretudo, do que a candidatura Dilma poderá oferecer de melhorias no bem-estar para essa nova classe média.


- Para este eleitor, não importa se o governo até garantiu o emprego, mas ele não tem dinheiro para pagar a TV a cabo. Repetir conquistas que já foram obtidas não fará com que ele vote pelo governo - diz Abrúcio.

sábado, 5 de julho de 2014

Guilherme Fiuza: A taça é deles (e a conta é nossa)

Os pessimistas e a elite branca deram com os burros n’água: a Copa do Mundo no Brasil é um sucesso. A bola está rolando redondinha, os gramados estão todos verdinhos e o país chegou até aí batendo mais um recorde: gastou com os estádios da Copa mais do que Alemanha e África do Sul juntas. Com brasileiro não há quem possa.

Aos espíritos de porco que ainda têm coragem de reclamar do derrame sem precedentes de dinheiro público promovido pelos faraós brazucas, eis a resposta definitiva e acachapante: a Copa no Brasil tem uma das maiores médias de gols da história. Fim de papo. De que adianta ficar economizando o dinheiro do povo, evitando os superfaturamentos e as negociatas na construção dos estádios, para depois assistir a um monte de zero a zero e outros placares magros? Fartura atrai fartura. Depois da chuva de verbas, a chuva de gols. É a Copa das Copas. Viva Messi, viva Neymar, viva Dilma.

Está todo mundo feliz, e o país mais uma vez se renderá a Lula. O oráculo afirmou que era uma babaquice esse negócio de querer chegar de metrô até dentro do estádio. Que o brasileiro vai a jogo até de jegue. O filho do Brasil mais uma vez tinha razão.

O país teve sete anos para usar a agenda da Copa e investir seriamente em infraestrutura de transportes. Sete anos para planejar e executar uma expansão decente do metrô nas capitais saturadas, por exemplo - obras caras que dependem do governo federal. Ainda bem que nada disso foi feito, e as capitais continuaram enfrentando sua bagunça a passo de jegue. Seria um desperdício, porque todo mundo sabe que essa mania de querer chegar aos lugares de metrô é uma babaquice da elite branca. Felizmente, o dinheiro que seria torrado nessa maluquice foi bem aplicado nos estádios mais caros do mundo, entre outros investimentos estratégicos.

Agora a Copa deu certo, o brasileiro está sorrindo e a popularidade de Dilma voltou a subir - provando de uma vez por todas que planejamento sério é uma babaquice. O que importa é bola na rede.

Nos anos que antecederam a Copa das Copas, os pessimistas encheram a paciência do governo popular com a questão dos aeroportos. Mas o PT resistiu mais uma vez à conspiração dessa burguesia ociosa que reclama de tudo. E deixou para privatizar (que ninguém nos ouça) os aeroportos às vésperas da Copa. Foi perfeito, porque sobrou mais tempo para o bando da companheira Rosemary Noronha parasitar o setor da aviação civil, proporcionando aos brasileiros o que eles mais gostam: ser maltratados nos aeroportos em ruínas, se possível derretendo com a falta de ar-condicionado (o que Dilma chamou carinhosamente de “Padrão Brasil”).

Os pessimistas perderam mais essa. Na última hora, com um show vertiginoso de remendos e puxadinhos (Brasil-sil-sil!), os aeroportos nacionais não obrigaram nem uma única delegação estrangeira a vir para a Copa de jegue. Todas as seleções entraram em campo - a televisão está de prova. E, no que a bola rolou, quem haveria de memorizar detalhes insignificantes, como metade dos elevadores da Favela Antonio Carlos Jobim enguiçados, além de algumas esteiras e escadas rolantes interditadas, entre outros desafios dessa gincana Padrão Brasil?

Ora, calem a boca, senhores pessimistas. A Copa deu certo. A Rosemary também.

Quem vai cronometrar o tempo dos otários nas filas monumentais? Os cronômetros só medem a posse de bola. E bem feito para quem ficou preso nos engarrafamentos a caminho do estádio, de casa ou de qualquer lugar. Lula avisou para ir de jegue. Você ficou engarrafado porque é um membro dessa elite branca que contribui para o aquecimento global. Além de tudo, é ignorante, porque ainda não entendeu que o combustível no Brasil foi privatizado pelos companheiros e seus doleiros de estimação. Como diria o petista André Vargas ao comparsa Alberto Youssef, o petróleo é nosso.

Além de jegue e jabuticaba, o Padrão Brasil tem feriado. Muito feriado. Quantos o freguês desejar. Pode haver melhor legado que esse para a mobilidade urbana? Se todo mundo andar de jegue e ninguém precisar ir trabalhar, acabaram-se os problemas viários. Poderemos ter Copa todo mês. E os brasileiros não precisarão mais correr riscos com obras perigosas como os viadutos - que, como se sabe, desabam.

A Copa no Brasil tem tido jogos realmente emocionantes. É o triunfo do único inocente nessa história - o futebol. Viva ele. Os zumbis que ficavam gemendo pelas ruas que “não vai ter Copa” sumiram na paisagem do congraçamento das torcidas. Mas é claro que isso será entendido pela geleia geral brasileira como... gol da Dilma! É a virada dos companheiros, a vitória dos oprimidos palacianos sobre as elites impatrióticas etc. A taça é deles. E a conta é nossa.

Se você não suporta mais essa alquimia macabra, que faz qualquer sucata populista virar ouro eleitoral, faça como os atletas do Felipão: chore.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Arnaldo Jabor: As brancas elites

Eu sou da elite branca. Infelizmente, nasci com olho azul, herança de sangue alemão temperando meu lado sírio libanês, o que talvez me faça ser da elite árabe ou suspeitosamente palestino e portanto antissemita e jihadista ?

Ou serei nazista? De parte de mãe, meu sobrenome é Hess. Serei parente do Rudolph Hess - um dos carrascos do Terceiro Reich? Quer dizer: será que eu sou um daqueles que estimulam setores reacionários a maldizer os pobres e sua presença nos aeroportos, nos shoppings e nos restaurantes , como afirmam petistas graduados? Será que eu desejo mesmo que os pobres morram de fome, como disse Dilma, porque a elite branca não suporta ver mulheres e crianças melhorando de vida ?

Por que sou tão malvado? Preciso fazer um exame de consciência. Mas antes vamos continuar a analisar esse termo vago: elite branca. Evoca doenças antigas, como flores brancas, peste branca .

Um comunista clássico diria classe dominante , mas Lula é um simplificador de categorias.

Lula inventou o termo, obedientemente repetido por Gilberto Carvalho. Esse termo é propositadamente impreciso, de modo que sirva de carapuça para todos os opositores. Lula sabe fazer bem um sarapatel de conceitos marxistas para o povão entender. Discorda? Elite branca.

E elite ? Essa palavra sempre foi muito usada por Lula, para engrandecer sua ignorância pessoal, para desovar sua inveja de gente que teve a sorte de estudar (Ex: FHC, sua obsessão).

E branca ? Há um claro racismo nisso aí. Brancos não são classe, são raça. Será que existe uma elite afrodescendente? Ou uma elite caucasiana? Não haverá cotas raciais para as elites? Afinal, e as elites pardas, onde ficam? E a elite amarela, elite índia? Não há elite preta, claro, pois Lula decretou que os pretos são pobres e bons. Branco é ruim? E os brancos que ajudam o PT como aliados? Sarney, Renan serão da elite branca e portanto malvados? Não; para Lula, eles são agentes duplos da elite branca e usados pelo PT para combatê-la. E são puros e bons os que roubaram e foram presos pelo Joaquim do STF? Claro, bons revolucionários injustiçados. Ele obviamente deve ser chefe de alguma elite negra secreta e pode ser merecidamente ameaçado de morte. Como seria essa malévola elite negra?

Digamos que o termo elite branca tivesse sido usado pelo ministro Joaquim; ele seria trucidado por racismo, sem dúvida. E se o Gilbertinho ou o Lula fossem pretos, eles usariam o termo? Não. Seria inconveniente politicamente. É muito melhor que eles sejam brancos e assim possam atacar brancos porque, apesar de o serem, estão do lado dos negros que sofrem no país todo . Ou seja, são brancos mas são bons, são brancos que não temem condenar os maus brancos. Por exemplo, não havia pretos pobres nas arenas porque a terrível elite branca é que concordou com os preços da Fifa. Ou foi o Lula, que topou tudo desde 2008?

Lula é um mestre em inventar termos úteis para desfigurar a verdade. Ele não tem o menor pudor disso, porque sabe que os pobres não sabem nada e engolem tudo que ele diz. Pobre pensa que dossiê é doce de batata! - ele falou com desdém no escândalo do dossiê dos aloprados, lembram? Havia negros entre os aloprados? Não, mas eles não eram brancos da elite - talvez fossem aloprados (militantes esforçados, mas, trapalhões... coitados) da ralé branca .

Outro dia, o Lula bradou: A elite brasileira está conseguindo fazer o que nunca conseguimos: despertar o ódio de classes . Este ato falho de Lula é sensacional. Tradução: sempre quisemos despertar o ódio de classes, mas nunca conseguimos. Mas, eis que vem a elite branca e consegue!

Ou seja, a elite branca é capitalista-leninista , quer a luta de classes contra o pobre PT, com seus militantes desvalidos, proletários oprimidos. Lula, que culpou os brancos de olhos azuis pela crise econômica mundial, só pensa em dividir os brasileiros entre nós e eles . É uma paranoia programada: a técnica de vitimização que funciona bem para ditadores que se dizem sempre defensores do povo - suas vítimas.

Todo mundo é responsável pelos anos de governo do PT, menos o PT.

Fascina-me a caradura com que condenam o passado, se eles são o passado. Estão aí há 12 anos e só conseguiram o caos. Mas a culpa não é deles, claro. Nunca. Através de mentiras revolucionárias vão aos poucos fulanizando os escândalos, como, por exemplo, na Petrobras. Segundo Gabrielli e seus colegas, houve erros passageiros, como Pasadena e Abreu e Lima, que ficaram um pouco caras... (só US$ 20 bilhões)... Graças a CPIs fajutas, ninguém jamais saberá como era o esquema entre os políticos de apoio e a Petrobras.

E os milhões desviados desde o mensalão, que foram um troco, comparados com os bilhões ainda lá fora, tirados dos fundos de pensão revolucionários ? E a inflação? Quando haverá correção monetária para o Bolsa Família?

Mas o perigo máximo é o programa ideológico que traçaram para o país. Não querem governar. Querem mudar o Estado. Se conseguirem, seremos jogados num bolivarianismo abrasileirado que acabará desmanchando nossas instituições já abaladas. Isso é o óbvio, mas tem de ser repetido! Pena que o povo não entenda porra nenhuma.

Se não, vejamos:


Em 1985 o PT foi contra a eleição de Tancredo Neves e expulsou deputados que votaram nele. Em 1988, votou contra a Constituição. Em 1994, votou contra o Plano Real, dizendo que era eleitoreiro. Em 1996, votou contra a reeleição, que hoje defende. Depois, em 1998, foi contra a privatização da telefonia, hoje com 200 milhões de linhas. Depois, foi contra a adoção de metas para a inflação. Em 2000, luta ferozmente contra a Lei de Responsabilidade Fiscal, que obriga os governantes a gastarem apenas o que arrecadam. O Proer, que nos salvou, impedindo a quebradeira dos bancos em 2008, foi demonizado. Quando FHC criou o Bolsa Escola, o Bolsa Alimentação e o Vale Gás, o PT foi contra, dizendo que eram esmolas eleitoreiras. Ou seja, o PT se acha uma elite vermelha, mas não passa de uma reles elite branca.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

João César de Melo: O Lucro Socialista

A quase totalidade das pessoas compartilha o desejo de viver com conforto e usufruir de algum luxo. As diferenças estão nas estratégias utilizadas.

O agente capitalista opta por construir sua vida a partir de seus próprios talentos e esforços, empreendendo negócios ou investindo numa profissão na qual enxerga a possibilidade de obter as recompensas que atenderão suas necessidades e seus desejos.

Para tanto, um empresário terá que administrar muito bem seu negócio para pagar salários, encargos, impostos e fornecedores e para oferecer bons produtos à sociedade, só então obterá o lucro que precisa para sustentar a família e a si mesmo, cujo nível de luxo dependerá única e exclusivamente de sua capacidade administrativa. Um empregado também terá que trabalhar cada vez mais e melhor para obter as recompensas que deseja.

Do outro lado, puxando a corda no sentido contrário, estão os socialistas. O socialista acredita que as recompensas dos esforços (o lucro) alheios devem ser distribuídas arbitrariamente entre todas as pessoas a partir de um conceito moral de “justiça social” – aquilo que não existe em nenhum lugar da natureza.

Sendo assim, o militante socialista investe na carreira de intermediário dessa distribuição, cobrando que uns devem trabalhar pelos outros, porém, escondendo seu real interesse: que todos trabalhem para ele e para seu partido. Ironicamente, é através da mais valia de Marx que melhor desmascaramos a demagogia socialista.

Segundo Marx, o valor de um produto e de um salário deve ser calculado em função do esforço nele empregado. Comparemos, então, os esforços empregados por um líder socialista e por um empresário para obterem seus confortos e luxos.

Em que medida o primeiro participa da produção das recompensas que usufrui?  Na medida de sua gerência sobre as relações sociais e trabalhistas? Se for, ele se iguala teoricamente a um empresário, este, que também é responsável por relações sociais e trabalhistas, já que sustenta famílias com os salários que paga. Podemos, então, enxergar que o líder socialista é um explorador, já que desfruta de recompensas desproporcionais aos seus esforços se o compararmos aos demais trabalhadores?

Outro ponto que escancara a demagogia e a cretinice do socialista profissional é sua rejeição à responsabilidade, não assumindo seus fracassos e não admitindo redução de seu lucro (salário e privilégios) a despeito de qualquer circunstância – considerando que eles sempre são mantidos, direta ou indiretamente, com dinheiro público. Pior: Comparando os confortos e luxos tanto de um líder capitalista quanto de um líder socialista veremos que são os mesmos, porém, como conforto e o luxo do primeiro sendo pagos por ele mesmo e o conforto e o luxo do segundo, sendo pagos pela sociedade – o primeiro trabalha para usufruir; o segundo manda os outros trabalharem para que ele usufrua.

O maior líder socialista brasileiro, Luís Inácio Lula da Silva, construiu sua fortuna acumulando pensões e “rendas extras” obtidas como recompensa pela “gerência de demandas sociais”.  Há vinte anos, Lula passa a maior parte de seu tempo em aviões, hotéis e restaurantes pagos pela sociedade, o que faz sua renda ser praticamente livre de gastos. Resultado: Ficou milionário. Acumulou dinheiro e patrimônio dignos apenas dos maiores empresários. Obteve lucros proporcionais ao esforço empregado só comparado ao de traficantes de drogas e de exploradores de prostituição.

O que ameaça os confortos e luxos de Lula? Nada. Seja qual for o resultado de seus mandos e desmandos na política brasileira, continuará recebendo todas as pensões do Estado. O que ameaça os confortos e luxos de um empresário? As instabilidades do mercado, as arbitrariedades do governo, uma dúzia de Black Blocs ou mesmo alguma bobagem administrativa que ele próprio faça.

O que representa o padrão de vida e o extrato bancário de um grande empresário sob a ótica da mais valia de Marx? Exploração da classe trabalhadora.

O que representa o padrão de vida e o extrato bancário de Lula sob a ótica da mais valia de Marx? Exploração da classe trabalhadora. Opa! Nesta hora, a lente socialista converte Lula num representante popular que obteve justas recompensas pelo quanto melhorou a vida da humanidade ao organizar greves e sabotagens, ao incitar o ódio entre raças e classes, ao incentivar a perseguição e intimidação a indivíduos independentes eao aparelhar o Estado, a imprensa, a cultura e até a Justiça em benefício de seu partido. Eis um líder socialista de sucesso!

Outros exemplos de obtenção justificável (sob o ponto de vista socialista) de altos lucros são os artistas e intelectuais que têm patrocínios e verbas garantidas (a despeito da qualidade de seus trabalhos) por defenderem o governo ou as dezenas de milhares de líderes da militância socialista espalhados em cada canto do país, que também recebem suas recompensas pelo engajamento partidário.

Todos eles rejeitam responsabilidades. Todos eles desrespeitam o trabalho alheio. Todos eles sustentam seus confortos e luxos sobre os esforços da sociedade que sistematicamente sabotam.

Resumindo: Nenhum agente capitalista obtém lucros maiores e mais injustos do que os lucros obtidos pelos socialistas.


*Arquiteto e artista plástico. Autor do livro Natureza Capital.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Arnaldo Jabor: Entrevista exclusiva com Stalin

“Entrevista? Eu?”

- Sim, camarada Stalin... Estamos em um momento histórico importante... O camarada está sendo relembrado em tantos países, inclusive na Rússia. O camarada está na moda...

- Você é do Brasil, não é? Saudades do Prestes... Ele está onde?

- Morreu e deve estar por aqui.

- Aqui neste limbo onde estou não tem ninguém. É o purgatório dos ditadores; não há ninguém para nos ouvir. Imenso céu branco e vazio. Esta é a nossa punição.

- Você está feliz aqui, “tovarich”?

- Eu virei uma sombra do que fui; sou até usado como xingamento, confundido com os fascistas e nazistas que eram uma imitação barata do bolchevismo. Esses merdas deviam me agradecer porque não existiriam se eu não tivesse mandado aqueles comunas alemães não votar na social-democracia, nossa principal inimiga. Aí, o nazismo ganhou. Se não fosse eu, o Hitler não tinha subido...

- Você tem orgulho do comunismo?

- O comunismo, camarada, é o substituto do sonho de “imortalidade” dos cristãos. Comunista não morre; vira um conceito. O homem é um ser social, não é? Pois é: o ser social nunca morre. O indivíduo é uma ilusão que criou essa dor melodramática. Quem morre é pequeno-burguês.

- Mas, na boa, camarada, você matou muita gente...

- Me acusam muito de crueldade, mas fazíamos uma mutação na vida humana e é impossível fazer uma revolução sem crueldade, sem tirania… O próprio Hitler, que me plagiava, disse: “Temos de ser cruéis. Temos de manter a consciência tranquila de sermos cruéis”. E eu digo que se não fôssemos cruéis não teríamos o socialismo. Como é que eu ia coletivizar a agricultura sem matar uns 800 mil “kulaks”, aqueles camponeses alienados, chupa-sangues, vampiros?

- Mas, camarada, você não exagerou?

- Ora, tanto faz. A morte de uma pessoa é uma tragédia; a de milhões, uma estatística. Temos de combater essas inibições pequeno-burguesas. Tivemos que dar muito conhaque para meus militares baterem um recorde: 28 mil traidores fuzilados em quatro semanas. Sete mil por semana. Os soldados, ainda calouros no bolchevismo, tinham de beber muito para cumprir minhas ordens... Vomitavam, choravam, mas deram conta. Foi um dos meus recordes. Sem contar os 40 mil oficiais do Exército que fuzilei. A única frase do canalha do Trotsky que presta é: “Quem foi que inventou que a vida humana é sagrada?”.

- Mas o camarada não sentia culpa?

- Nada. A compaixão é um sentimento de enfermeiras, assim como a gratidão é uma doença de cachorros... Cá entre nós, não tenho mais de esconder nada, a euforia que me tomava com a morte de milhares de homens por minhas ordens era uma deliciosa vertigem. Muita gente que justicei não tinha noção da maravilha que era construir o Homem Novo. Eu comecei a construção do soviético essencial: frio, fiel escravo do Partido que está sempre certo. Vocês têm na terra um bom exemplo: a Coreia do Norte. Mas aquele garoto é um estúpido feito o pai. São um exército de imbecis. Você viu o ridículo: todo mundo fingindo chorar quando morreu o papai do garoto? Eu fazia uma história nova; não esta historinha burguesa não, mas a História! Já pensou: milhões de homens iguais a mim? Eu, eu, eu, milhões de Stalins? O Homem Novo não sente falta da individualidade perdida. Ele ganha o encanto infinito da servidão, a religião, a alegria de pertencer a um partido infalível. Dá um alívio não ter que pensar, só obedecer. Ainda bem que os camponeses russos eram analfabetos e não podiam ler jornais e livros do país. Aliás, Hitler escreveu: “Que sorte para os ditadores que os homens não pensem.” A construção do Homem Novo custou muito sangue, eu sei, mas não tinha outro jeito. Difícil foi na Ucrânia, quando proibi comida naquele buraco de traidores e de “kulaks” reacionários. Morreram mais de 4 milhões de fome, teve até canibalismo, dizem, mas a Ideia justifica tudo.

- Mas, camarada, você sempre falou que almejava a democracia…

- Eu falei foi sobre o centralismo democrático do Partido; não essa besteira de democracia burguesa sem controle, sem comando. Eu comandei a democracia interna sempre. Quando tive de expurgar agentes trotskistas, foi também uma festa poder limpar as estrebarias do Comitê Central. Dos 139 membros, fuzilei 98... Ah... Saudades do Zinoviev, Kamenev, Rykov, Bukharin…

- Eles tiveram liberdade de defesa?


- “Liberdade para quê?”, como respondeu Lenin quando vencemos. Com liberdade não teríamos fuzilado a família do czar Nicolau II; só um bolchevique profundo teria sangue frio para ver as criancinhas morrendo sob balas. Esse é o preço da liberdade: a vigilância absoluta. Mas, o Brasil está seguro contra os perigosos agentes de direita, neoliberais e espiões do imperialismo. Vocês sabem que nós criamos os “sovietes” na Rússia, os conselhos, como chamam vocês... Parabéns. Os conselhos são um primeiro passo para controlar essa besteira de democracia representativa, que vocês tiveram a sabedoria de usar, mas agora atrapalha a construção do bolivarianismo (ah, esse meu filhote bastardo...). Ao menos minhas ideias ainda repercutem… Veja a Venezuela, Argentina, tantos seguidores. A única coisa que importa é o controle da sociedade. Temos de tutelá-la. Eu já disse uma vez: o povo deve ser educado com o mesmo cuidado com que um jardineiro cultiva uma árvore de estimação. As ideias são muito mais poderosas do que as armas. Nós não permitimos que nossos inimigos tenham armas, por que deveríamos permitir que tenham ideias? Acho que seu país está no bom caminho: controlar a mídia, como vocês chamam hoje. A imprensa é a arma mais poderosa de nosso partido e vocês vão seguir nosso exemplo. Toda propaganda tem que ser popular e acomodar-se à compreensão dos menos inteligentes. Como você vê, estou repetindo as frases da besta do Hitler. Mas ele nos deu um bom conselho, que serve muito para seu país, caro jornalista: “Quanto maior a mentira, maior é a chance de ela ser acreditada”. O povão não sabe nada. É isso aí, cumpanheiros: vão em frente que a luta continua...